A formação contemporânea do Oriente Médio
Victor Augusto Rocha Cantarino
Jéssica Felix
João Pedro Rezende
Se, no texto anterior, foi abordado de que forma o imperialismo europeu dos fins do século XIX cunhou e popularizou o termo “Oriente Médio”, no presente texto há uma reflexão acerca de como grande parte dos países que hoje o compõem surgiu. O panorama geopolítico contemporâneo do Oriente Médio é o produto de administração colonial direta, sistemas de protetorados, clientela e o sistema de mandatos estabelecido pela Liga das Nações.
A grande parcela dos Estados que hoje compõem o Oriente Médio nasceu de territórios que faziam parte do Império Otomano. Essa entidade política existiu durante cerca de 600 anos e possuía seu aparato central localizado em Istambul, a antiga Constantinopla do Império Bizantino. Em seu auge, os otomanos controlavam uma área que era limitada a leste pelo Império Persa, ao sul pela Península Árabe e a Tripolitânia na África, ao norte pelos Balcãs europeus e ao Oeste se estendia até a Tunísia.
Figura 1- Expansão do Império Otomano
Fonte: Britannica
Mesmo que controlasse territórios dentro do continente europeu, o império só passou a configurar como participante dos assuntos políticos da Europa continental após a Crise Oriental de 1840, quando praticamente perdeu o controle da província egípcia. E só passou a de fato fazer parte do Concerto em 1856, quando assinou, junto a outras Grandes Potências, o Tratado de Paris, que deu fim à Guerra da Crimeia. A política exterior do Império era praticamente centrada em Istambul, de forma que os árabes tinham pouco ou nenhum contato com o aparato burocrático otomano para conduzir relações exteriores.
Figura 2 — Vista Panorâmica de Istambul
Fonte: Freepik.com
Em meados do século XIX, no auge do poder militar e econômico da Inglaterra por conta da Revolução Industrial, a Europa tornou-se cada vez mais o centro do mundo. Nesse contexto, quando os valores ditos “ocidentais” começavam a se consolidar mundialmente sob a égide do Imperialismo, a região otomana era vista cada vez mais como um território estranho e alheio ao então dominante Concerto Europeu. Após a Crise Oriental de 1840, devido ao extenso tamanho e valor histórico do Império, os líderes europeus acordaram que nenhuma das Grandes Potências deveria tentar controlar toda a região. Esse pensamento ficou cristalizado no secreto Protocolo de Abnegação, adotado pela Grã Bretanha, Áustria, Prússia e Rússia, afirmando que nenhum poder buscaria ganhos territoriais ou comerciais em domínio otomano às custas de qualquer outro poder. Contudo, a ferrenha disputa capitalista que se desenrolou no final do século XIX alterou completamente essa lógica. Ainda que fosse reconhecido como importante para conter as pressões expansionistas russas, o relativo “atraso” ideológico, político e econômico que irradiava de Istambul tornava cada vez maior o desejo das nações da Europa Ocidental de se apoderar das vastas terras otomanas.
O grande salto tecnológico — e consequentemente econômico — propiciado pela Segunda Revolução Industrial, no último quarto do século XIX, aumentou ainda mais as pressões em cima dos monarcas otomanos: cerceados, tiveram que se adaptar às ideologias mais liberais que fervilhavam ao norte do Mediterrâneo. As reformas conhecidas como Tanzimat tinham como objetivo principal modernizar o aparelho estatal otomano, centralizando o poder, ainda na metade do século. Os líderes otomanos queriam reproduzir o modelo europeu de Estado moderno no Império Otomano, mas acabaram por abrir frestas que enfraqueceram o poder central em Istambul. As Grandes Potências europeias, não alheias a esse desenrolar, renunciaram ao Protocolo de Abnegação e aproveitaram a oportunidade para impor uma série de tratados unilaterais ao Império. Nas primeiras décadas do século XX, o Império Otomano cambaleava.
Em 1914, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia, mergulhando o Velho Continente na mais sangrenta das batalhas que o homem tinha visto até então. Os otomanos aliaram-se às Potências Centrais, isto é, Alemanha, Império Austro-húngaro e Itália, uma vez que eram inimigos históricos dos russos, integrantes da Entente. Durante o conflito, o destino da região passaria gradualmente e de forma não perceptível até o fim da Guerra das mãos turcas para as inglesas: a Inglaterra se colocaria como personagem principal do futuro da região. Nesse sentido, pode-se perceber três movimentos britânicos contraditórios e que seriam a base da formação do Oriente Médio contemporâneo: um em direção a franceses e russos, outro aos árabes e, por último, um aos sionistas (judeus que tinham uma visão nacionalista sobre a comunidade judaica ao redor do mundo).
Figura 3 — Tropas Britânicas em Constantinopla
Fonte: Military Review
Primeiramente, os ingleses sistematicamente buscaram apoio de árabes influentes e poderosos dentro dos limites do Império Otomano. Esses líderes regionais possuíam forte poder local, mas que não possuíam o controle político de fato, já que este estava centralizado na mão dos turcos. O principal destes foi Hussein ibn Ali a quem fora prometido que, em troca de auxílio contra as tropas otomanas, os ingleses estariam preparados para reconhecer e dar suporte à independência dos árabes em todas as regiões dentro dos limites demandados pelo xarife de Meca. A família Hussein fazia parte do clã político dos Hachemitas, importante grupo árabe que teria papel fundamental no futuro dos territórios árabes. Essa promessa britânica está documentada em uma série de correspondências trocadas entre 1915 e 1916 por Hussein e Sir Henry McMahon e, por isso, é conhecida como “Correspondência Hussein-McMahon’’. Embora a promessa fosse vaga, não especificando claramente a criação de um Estado árabe, como Ali acreditava, o líder muçulmano proclamou em 1916 a Grande Revolta Árabe, um levante contra as tropas comandadas por Istambul. A revolta foi fundamental para o desenrolar da guerra no teatro otomano em benefício da Entente, porém, as consequências não foram as imaginadas por Ali.
Segundamente, os britânicos haviam estabelecido acordos secretos com russos e franceses para dividir a área do Levante entre eles, entendida como “espólio de guerra”. Dessa forma, como foi de praxe durante aquele período, os encarregados da alta política das Grandes Potências se reuniram em uma conferência secreta para decretar o que fazer com o que sobrasse das terras otomanas, em caso de derrota de Istambul. O acordo nascido dessa conferência foi o secreto Acordo Sykes-Picot, de 1916, que dividia a região levando em conta os interesses petrolíferos e comerciais de cada um dos envolvidos. Assinado primeiramente por Inglaterra e França, passou a incluir Itália e Rússia após um tempo. Após a Revolução Russa, Lênin se retira do acordo e torna pública uma cópia do documento, o que gerou grande desconfiança entre os árabes.
Figura 4- Divisão em zonas de interesse de acordo com o acordo secreto Sykes-Picot
Fonte: BBC
Terceiramente, em 1917, ainda durante a Guerra, Arthur Balfour, então secretário da coroa britânica para assuntos estrangeiros, escreveu uma carta ao influente Barão de Rothschild, líder da comunidade sionista no Reino Unido. O objetivo, de acordo com a bibliografia, era atrair a simpatia de judeus norte-americanos para a causa da Entente, impulsionando o país a tomar frente ativamente no esforço de guerra. Na carta, Balfour afirmava o compromisso da Rainha em ajudar a criar um lar nacional na Palestina, embora não deixasse claro que se tratava de um Estado-nação. A ideia que guiava Rothschild e os futuros pioneiros do que viraria o Estado de Israel é o sionismo, ideologia que prega que os judeus se constituem enquanto um só povo, com uma história, uma língua-mãe, uma cultura e que vivem em Diáspora após terem sido expulsos da Palestina ainda na época do Império Romano. Nesse sentido, por nunca terem conseguido a paz e a assimilação nos territórios em que passaram a viver, sobretudo na Europa Oriental, eles teriam o direito de se unir em um Estado e, se este fosse no “lar histórico judeu”, a Palestina, melhor. Logo, a Declaração Balfour, mesmo que não tenha corroborado explicitamente a busca de um Estado, foi interpretada como um pequeno aval para tentar buscar sua autodeterminação.
Figura 5 — Declaração Balfour
Fonte: Embaixada de Israel em Portugal
O fim do conflito, em 1918, praticamente sepultou o Império Otomano. Na Conferência de Paz, em Versalhes, no ano de 1919, as diferentes delegações árabes se animaram com a chance de finalmente poderem usufruir das benesses do Estado-nação, que havia dado tanta prosperidade aos países ocidentais. Ledo engano: em Paris, esses homens descobriram, junto com outras delegações de países do mundo colonial, que a “Sociedade das Nações” era mais um clube privado que uma instituição que lhes daria autonomia. Embora fosse a primeira vez na história que o Oriente Médio enquanto região se apresentou ao Sistema Internacional, os árabes descobriram da pior forma o quanto a centralização da Política Externa Otomana em Istambul os havia privado de serem bem vistos pelos líderes europeus.
Em 1920, assinou-se o Tratado de Sèvres, que deu fim ao Império Otomano e redesenhou as fronteiras do Oriente Médio. Nessa nova configuração, não haveria nenhum Estado herdeiro político dos otomanos e as áreas antes nas mãos de Istambul seriam anexadas pelos países europeus. Entretanto, um forte movimento nacionalista turco foi capaz de impedir a efetivação do tratado, o que gerou, em 1923, a assinatura do Tratado de Lausanne, que criava a Turquia e a reconhecia como herdeira dos otomanos. Seria o único ex-território otomano a ter sua independência plena reconhecida.
Figura 6 — Membros da delegação turca no navio de guerra Entente a caminho de Sèvres
Fonte: Military Review
Para o restante da região, o destino não foi tão benéfico: em 1922, a Liga das Nações, organização criada em Versalhes para reger as relações internacionais, criou o sistema de mandatos. Um mandato era basicamente uma área que tinha capacidade de constituir um Estado soberano, mas ainda precisava de alguma tutela de uma Grande Potência para aprender os princípios da civilização dita avançada. Os objetivos formais dos Mandatos explicitamente incluíam a noção de uma transição para a soberania, mesmo assim, a implementação do sistema de mandatos claramente limitou os ensinamentos da arte de governar e da diplomacia no mundo árabe. Na prática, essas localidades foram basicamente tratadas como possessões coloniais de França e Inglaterra, a qual conseguiram repartir a região de acordo com o que fora acordado em 1916 por meio dos Acordos de Sykes-Picot. Para agravar a situação, a já mencionada Declaração Balfour, de 1917, foi anexada no documento de criação do Mandato da Palestina, o que teria sérias consequências no futuro.
Pelo restante do século XX e início do XXI, as questões sociopolíticas do Oriente Médio estarão diretamente relacionadas com a divisão criada em 1922 pela Liga das Nações, a qual criou, de forma arbitrária, as fronteiras de grande parte dos atuais Estados médio-orientais, deixando de lado questões internas ao delimitar os territórios de acordo com seus interesses imperialistas na região, sendo resultado de uma série de tratados e acordos após a queda do Império Otomano. Isso influenciou fortemente o cenário político, econômico e social desses países, fazendo com que questões atuais que são objeto de conflito, tenham se originado da colonização e exploração pela lógica ocidental. Sendo assim, nas publicações a seguir serão abordadas questões históricas, culturais, e contemporâneas de cada país que constitui a região que, por convenção, chamamos de Oriente Médio.
REFERÊNCIAS:
BAXTER, Kylie; AKBARZADEH, Sharam. Middle East Politics and International Relations: Crisis Zone. Nova Iorque: Routledge, 2018.
GELVIN, James. The Modern Middle East. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2011.
ROGAN, Eugene L. The Emergence of the Middle East into the Modern State System. FAWCETT, Louise (Ed.). International Relations of the Middle East. 4. ed. Oxford: Oxford University Press, 2016.
REFERÊNCIAS DAS IMAGENS:
https://pt.topwar.ru/179501-padenie-osmanskoj-imperii.html
https://pt.topwar.ru/179501-padenie-osmanskoj-imperii.html
https://br.freepik.com/fotos-gratis/istambul-e-o-bosforo-em-uma-visao-panoramica_10266388.htm
https://www.britannica.com/place/Ottoman-Empire
https://embassies.gov.il/Lisboa/NewsAndEvents/Pages/A-Declaracao-Balfour.aspx