A INTERAÇÃO FIFA E ORIENTE MÉDIO: COMO A REALIZAÇÃO DE MEGAEVENTOS ESPORTIVOS IMPACTAM NOS INSTRUMENTOS DE PODER E DIVERSIFICAÇÃO ECONÔMICA DOS PAÍSES DO GOLFO PÉRSICO

GEOM UFU
9 min readFeb 18, 2022

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Há menos de uma semana o Chelsea (Inglaterra) derrotou o Palmeiras por 2x1 durante a final da Copa do Mundo de Clubes da FIFA (Federação Internacional de Futebol e Associados), sediado em Abu Dhabi, e se sagrou campeão mundial pela primeira vez em sua história. Se de um lado essa história e campanha do Mundial de Clubes marca as características intrínsecas ao futebol, com os debates entre táticas e modelos de jogo, a emoção da partida, o amor e canto das torcidas, a tristeza pela derrota, o êxtase pela vitória, e a grande integração entre povos oriundos de todos os cantos do planeta, há também as questões fora do âmbito esportivo que envolvem essas últimas campanhas da competição de clubes promovidas pela FIFA.

Com isso, é possível perceber um maior destaque de dois países do Golfo Pérsico nesse movimento de fomento ao esporte, seja por questões sociais, econômicas, políticas (tanto públicas quanto externas) e até mesmo práticas de “Sportswashing”, atreladas ao esporte como instrumentos de poder, sendo eles os Emirados Árabes Unidos e o Catar.

O esporte é um elemento cultural presente nas sociedades desde a antiguidade, a exemplo dos gregos que criaram os Jogos Olímpicos ainda com o aspecto religioso, mas sobretudo político, já que as guerras eram interrompidas durante a realização dos jogos.

Atualmente as Olimpíadas perderam a natureza religiosa, todavia o esporte vem desempenhando diversas funções/papéis, como a econômica, social, lúdica, como metodologia de ensino, entre outros, porém nos apegaremos à qualidade política do esporte, atrelado à sua capacidade ideopolítica.

A função social do esporte pode ser observada através dos torcedores, das práticas de lazer e saúde, a característica econômica pode ser expressada através da cadeia produtiva esportiva, essa que representa de 1,5% a 2% do PIB (Produto Interno Bruto) (PRONI, 2014) brasileiro, além de provocar outros efeitos econômicos quando organiza e/ou vence megaeventos (HOERNER, 2011), e a natureza política pode ser evidenciada na disputa pelas primeiras posições do quadro de medalhas em Olimpíadas, no qual o esporte é uma ferramenta de continuidade de guerras, conflitos e disputas entre Estados e Nações.

As Olimpíadas e a Copa do Mundo de Futebol são dois dos mais relevantes megaeventos da atualidade pela sua capacidade de atrair cada vez mais pessoas, os transformando em vitrines globais, onde os agentes controladores do poder usufruem da popularidade para redefinirem as suas imagens e buscar o prestígio da opinião popular internacional.

A utilização do esporte como instrumento de propagação de poder não é uma prática inédita, durante o século XX os megaeventos foram utilizados por países como Alemanha, União Soviética, Estados Unidos, Itália, Brasil e Argentina. Contudo é uma ferramenta que vem sendo constantemente aperfeiçoada no século XXI, uma de suas variações é o sportswashing, baseando-se nas ações, que são majoritariamente feitas por governos árabes, mas que possui a China e Rússia como adeptos, de investimento em esportes.

O Sportswashing ou “lavagem desportiva”, de forma abrangente, é uma estratégia de propagação de poder, que une o conceito de duas palavras, o “(d)esporte” com a expressão, de “lavagem cerebral”, e tem como base no soft power, ou seja, que é basicamente quando os Estados buscam camuflar seus registros históricos de ataques aos direitos humanos, financiando e trazendo grandes eventos para seu território, como Abu Dhabi faz sediando a Copa do Mundo de Clubes da FIFA e tendo o próprio circuito de Fórmula 1, ou até mesmo usando seus petrodólares para investir em super estrelas para a construção de times históricos, com o governo de Abu Dhabi adquirindo o Manchester City em 2008 pelo Abu Dhabi United Group. A relação do time inglês com o Emirados Árabes Unidos não se encerra nessa questão, sendo o time ainda patrocinado pela companhia aérea Etihad Airways, que possui também o “naming rights” do estádio do clube da cidade de Manchester (FINANCIAL TIMES, 2019),

A China cuja capital é Pequim, foi a primeira cidade do globo a sediar um Jogos Olímpicos de Verão (2008) e de Inverno (2022), ambas edições foram acusadas de serem parte de uma estratégia de “Sportswashing” para dissociar a imagem do país aos conflitos na província de Sinquião (Xinjinang) no Noroeste chinês, este que é povoado por diversas minorias étnicas, como os uigures-turcos, considerados pelos chineses de relação com o terrorismo islâmico panturquista. A edição de inverno foi boicotada diplomaticamente por Estados Unidos, seguido alguns membros da OTAN e aliados, como Austrália, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estônia, Índia, Japão, Kosovo, Lituânia e Reino Unido, sob a narrativa de infração aos direitos humanos contra as minorias étnicas (SILVA, GOMES, 2021).

No contexto do Catar, um país pequeno e cercado por vizinhos territorialmente extensos, a visibilidade do esporte foi utilizada como instrumento de proteção da sua afirmação e soberania. A diplomacia esportiva vem sendo parte da política de Estado do país, que organiza megaeventos, desenvolve esportes internamente e patrocina múltiplas instituições e competições internacionais, buscando diversificação da sua econômica, modernização do país, reconhecimento e consolidação do país no cenário internacional, inserção no mapa turístico global, dissociação da imagem terrorista imposta pelo ocidente, dentre outros fatores que são elencados a partir do esporte. (BONIFACE, 2014).

A escolha do país como sede da Copa do Mundo de 2022 precede um histórico do país organizando outros eventos, como os Jogos Asiáticos (2006), Copa das Nações da Ásia de Futebol (2011), o Campeonato Mundial de Handball (2015), Mundial de Clubes De Futebol (2020), o Grande Prêmio de Formula 1 (desde 2021), Copa Árabe de Futebol (2021) e outros eventos, que permitiram que o país fosse o primeiro do Oriente Médio a pleitear o direito de organizar um megaevento, colocando o Catar em evidencia na região.

Partindo para a abordagem dos Emirados Árabes Unidos, vale analisar o documento oficial do governo, denominado de “Emirados Árabes Unidos Visão 2021”, no qual a principal meta que rege esse documento é a busca por uma diversificação econômica do país a partir de um desenvolvimento sustentável para os próximos anos, em decorrência de um mundo que está cada vez menos dependente do petróleo. Com isso, Dubai e Abu Dhabi desempenham um papel central nesse processo, sendo as duas principais cidades desse Estado do Golfo Pérsico e tendo nas últimas décadas passado por um grande crescimento econômico, populacional e de desenvolvimento em infraestruturas. Nessas duas cidades somadas ao Catar, se estabelece uma economia de aglomeração, que é quando um número de indústrias se concentram em uma área formando um “cluster” geográfico e conseguindo ganhos em escala, e isso acaba favorecendo o desenvolvimento da indústria esportiva nessas regiões, já que essa proximidade geográfica entre as empresas geram uma alta eficiência e nível de produtividade dos trabalhadores, além de já haver indústrias mais desenvolvidas e um mercado consumidor mais bem estruturado. A principal consequência disso é essas cidades se tornando sedes de diversos eventos esportivos, como das competições FIFA no caso do futebol, mas que também se aplica a outros esportes, como a Formula 1, e conseguindo expandir ainda mais com o aumento das facilidades e da publicidade criada em torno desses centros urbanos como locais bastante desenvolvidos para serem sedes desses mega-eventos. (REMY-MILLER, 2017).

Esse grande movimento de transferência de importantes eventos para o território dos Emirados Árabes Unidos favorece bastante a ampliação de receitas nessa região, com o incremento das atividades de turismo, desenvolvimento de aeroportos e realização de grandes festivais. Por isso há uma série de investimentos no desenvolvimento econômico ligado ao esporte, observando isso com uma série de iniciativas do país do Golfo Pérsico.

Em Dubai há um grande complexo denominado de “Dubai Sports City”, um grande centro industrial e de infraestrutura em esportes, com 70 mil moradores na região, e lar de dois grandes estádios e de um campo de golfe de excelência aos padrões mundiais, além da presença de um grande centro comercial, e assim, utilizando do esporte para atrair investidores, turistas, grandes eventos, e principalmente, diversificar e ampliar suas receitas. Outras políticas domésticas envolvem ampliar o interesse das pessoas nos esportes, a fim de melhorar a qualidade de vida de sua população, diminuir os casos de doenças relativas ao sedentarismo e obesidade, formar crianças mais ativas para as questões esportivas, e também, criar um grande mercado consumidor para esses esportes sediados na região, a partir do maior interesse dos cidadãos nessa área. (REMY-MILLER, 2017).

Ademais, os Emirados Árabes Unidos possuem interesse em trazer esses avanços e abrigar esses grandes eventos a fim de mostrar que pode exportar boas práticas para outros países em vários campos socioeconômicos, construindo um legado que possa ser sustentado e durar por um longo prazo, além de se expandir para toda a região do Oriente Médio e resto do mundo. Ao demonstrar essa capacidade de ser sede de uma série de grandes eventos, Dubai e Abu Dhabi se portam como um exemplo de desenvolvimento na infraestrutura, logística, tecnologia e na própria economia, sendo um importante instrumento de soft power para os Emirados Árabes Unidos poder mostrar seu grande potencial e poder para o resto do mundo, além de conseguir exportar sua cultura e práticas inovadoras para outros países ampliando sua influência ao longo do globo. (REMY-MILLER, 2017)

Partindo da ótica das relações de poder, a FIFA, o COI (Comitê Olímpico Internacional) e outras Organizações Não Governamentais Internacionais esportivas, não se apegam ao relacionamento apenas com os Estados nacionais, esse diálogo é expandido a outras figuras importantes que compõem a governança global, tais atitudes as inserem no Sistema Internacional. As entidades esportivas procuram atrelar sua imagem às boas práticas, costumes e morais universais, que condizem com a prática esportiva, participando de programas de propagação da paz, como o Handshake for Peace, de desenvolvimento social. Em 2017, A entidade publicou o documento “Políticas de Direitos Humanos da FIFA”, trazendo consigo ações que envolvem desde um sistema de monitoramento de antisdiscriminação em suas competições, e até mesmo mecanismos para a fiscalização dos direitos trabalhistas nos canteiros de obras dos estádios para as Copas do Mundo de 2018 e 2022, ambas sediadas, respectivamente, pela Rússia e pelo Catar (FIFA, 2017).

Entretanto, o movimento recente mostra que essa organização não vem seguindo esses protocolos de maneira efetiva, com uma série de eventos sendo levados para regiões onde os direitos humanos são constantemente desrespeitados pelos governos autocráticos, como no Catar e Emirados Árabes Unidos, sendo países denunciados por desigualdades e violência de gênero, restrição à liberdade de expressão e até mesmo descumprimento dos direitos trabalhistas de migrantes (como é possível observar no caso da construção de estádios para a Copa do Mundo de 2022 no Catar).

Desde 2009, o Oriente Médio e os países árabes vem sendo alvo das ações da FIFA quando o Mundial de Clubes da FIFA foi levado para os Emirados Árabes Unidos, depois uma série de eventos foram levados para essa região do globo, com várias delas sendo promovidas pela própria FIFA como o Mundial de Clubes no Marrocos (2013 e 2014), Emirados Árabes Unidos (2009, 2010, 2017, 2018 2021) e Catar (2020), que adota uma postura de levar o esporte e esses grandes eventos para a região do Oriente Médio, como uma grande oportunidade para a região descobrir o poder do futebol como uma força de transformação social, alegando que seguirá todas as normas do direito internacional dentro de seus eventos. Todavia entidade busca alcançar um mercado consumidor pouco explorado e apaixonado por futebol, percebe-se que grandes parceiras da FIFA são empresas localizadas no Oriente Médio, como a companhia “Qatar Airways” que patrocinou o último Mundial de Clubes em Abu Dhabi, e a própria “Emirates Airline”, que decidiu não renovar seu contrato devido aos escândalos recentes envolvendo corrupção e desrespeito aos direitos humanos por parte das competições FIFA. (REMY-MILLER, 2017). Assim tais ações representam não apenas uma intensão econômica da FIFA, mas demonstra a reestruturação de poder no Sistema Internacional, antes concentrado nos países centrais e agora deslocando-se aos países periféricos.

REFERÊNCIAS

BONIFACE, P. Géopolitique du sport. Paris: Armand Colin, 2014. ISBN: 978–22–002–8961–4.

FIFA. FIFA publica política histórica de direitos humanos. Disponível em: https://www.fifa.com/about-fifa/organisation/news/fifa-publishes-landmark-human-rights-policy-2893311. Acesso em: 17 fev. 2022.

FINANCIAL TIMES. Why the Gulf states are betting on sport. Disponível em: https://www.ft.com/content/15bc48b6-0c8c-11ea-b2d6-9bf4d1957a67. Acesso em: 17 fev. 2022.

HOERNER, J. M. Geopolítica do turismo. Tradução de Gian Bruno Grosso. São Paulo: SENAC, 2011.

PRONI, M. W. A economia do esporte em tempos de Copa do Mundo. ComCiência, Campinas, n. 157, abr. 2014. Disponível em: <https://bit.ly/3Fjawe5/>. Acesso em: 28 abr. 2021.

REMY-MILLER, Keegan. Sports in the Desert: How Qatar, Abu Dhabi, and Dubai are employing sports to make economic, political, and international gains. 2017. Master´s Thesis — Graduate Program in Global Studies. The Faculty of the Graduate School of Arts and Sciences, Brandeis University. Waltham, Massachusetts.

SILVA, E. S. P.; GOMES, M. T. S. Os BRICS e a organização de megaeventos esportivos na ordem mundial pós-guerra fria. Revista GeoUECE, Fortaleza (CE), v. 10, n. 19, e202201, 2021. Disponível em: https://bit.ly/3LJcet2. Acesso em 15 fev. 2022.

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Somos um Grupo de Estudos em Oriente Médio, idealizado por alunas do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

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