“Eu não compreendo seu otimismo. Por que deveriam os árabes querer a paz? Se eu fosse um líder árabe, nunca negociaria termos com Israel. Isso é natural: nós tomamos o país deles. Claro, Deus a prometeu para nós, mas o que isso importa para eles? Nós viemos de Israel, é verdade, mas dois mil anos atrás, e o que é isso para eles? Nosso Deus não é o deles. Houve antissemitismo, os nazistas, Hitler e Auschwitz, mas foi culpa deles? Eles só enxergam uma coisa: nós viemos aqui e roubamos o país deles. Por que eles deveriam aceitar isso?
(tradução nossa)
David Ben-Gurion, Primeiro-Ministro de Israel (disponível no link: https://www.thenews.com.pk/print/854128-middle-east-a-way-forward)
A essência da disputa em questão no presente texto está entre os nacionalismos palestino, tutelado pelos Estados árabes, e israelita, institucionalizado no Estado de Israel. A questão não é fundamentalmente religiosa: muçulmanos, cristãos e judeus sempre haviam convivido relativamente bem na área, dentro do Império Otomano. A questão começou principalmente após o Mandato Britânico na Palestina, que, não só estimulou o sionismo, como também, consequentemente, estimulou a autodeterminação palestina como oposição ao primeiro movimento. Nesse aspecto, o objetivo passou a ser o controle ou, posteriormente, a aceitação da coexistência na área geral da Palestina, localizada entre o Sinai, o Mediterrâneo, o Rio Jordão e as Colinas de Golã.
Israel fora apoiado em sua criação pelas duas superpotências, ainda no princípio da Guerra Fria, em que se formavam ainda as áreas de influência de cada. Moscou apoiou o novo país não só porque grande parte dos judeus que viviam lá tinha origem russa, mas também para frear o colonialismo inglês, buscando obter amizade com os judeus, devido às raízes socialistas do governo trabalhista em Tel-Aviv. Já Washington, por temer que o novo Estado se aproximasse muito dos soviético, devido às semelhanças ideológicas com os socialistas, desde o início propôs planos de apoio financeiro, também para conquistar a amizade israelense.
A Primeira Guerra Árabe-Israelense durou de Maio de 1948 até Março de 1949. Foi reflexo direto da criação do Estado de Israel: apenas um dia depois da Proclamação de Independência, os países árabes na região declararam guerra contra o estranho vizinho que agora habitava suas fronteiras. De um lado, encontrava-se a recém criada nação israelita e do outro Egito, Iraque, Líbano, Síria e Transjordânia, além dos árabes palestinos. O conflito deixava de ser visto como a oposição entre apenas dois povos no mesmo local e passaria a ganhar contornos maiores, como uma Guerra entre Estados. Como consequência, os palestinos cada vez mais perderam sua própria voz e passaram a ser representados pelos países árabes, cada um com a sua própria parcela de palestinos vivendo neles.
O conflito durou quase um ano, com o lado judeu vencedor, mesmo enfrentando um número considerável de inimigos. Ainda que, em Israel, a história de 1948 tenha sido muitas vezes contada como a “vitória de Davi contra Golias”, a realidade é bem diferente. Os judeus, embora com um território muito menor, eram muito mais organizados e acostumados com instituições militares que seus rivais, a maior parte de seus soldados era formada por voluntários, dispostos a morrer se o prêmio fosse a futura segurança de seu povo. A meta era defender o próprio direito à existência de seu povo, com o intuito de propiciar um futuro seguro para seus descendentes, mesmo que isso significasse a morte. Já seus rivais árabes eram militarmente desorganizados, com exércitos de tipo regular, formado por homens obrigatoriamente alistados que muitas vezes não sabiam nem a causa que estavam a defender.
Formalmente, a Guerra não acabou: de todos os envolvidos árabes nos conflitos israelenses, só dois assinaram Tratados de Paz com os judeus e ainda demoraram 30 anos até que o primeiro deles fosse assinado; o que houve em 1949 foi um armistício geral. O nome como é conhecida a Guerra de 1948 em cada um dos lados envolvidos dá a tônica do peso que ela tem na história de cada povo. Para os judeus, é a Guerra de Independência, afirmando, à força, o direito de existência de Israel, o ponto alto do movimento sionista e um orgulho na história do país. Já para os palestinos, é conhecida como Al-Nakba, isto é, “A Catástrofe”, pois, se o sonho da autodeterminação já era difícil, agora era quase impossível conquistá-lo.
Israel foi prontamente reconhecido enquanto Estado independente e suas fronteiras já não eram mais aquelas propostas pelas Nações Unidas em 1947: o país aumentou seu território até onde foram assinados os tratados de armistício, englobando partes até então designadas para o Estado árabe. As outras duas regiões em que deveria se criar a nação Palestina, Faixa de Gaza e Cisjordânia, foram anexadas por Egito e Jordânia, respectivamente, reflexo do fato de que mais do que defender a causa palestina, alguns Estados entraram na guerra principalmente para assegurar seus próprios objetivos. A Cidade Sagrada de Jerusalém, sagrada para as 3 maiores religiões monoteístas do mundo, também foi alvo de violação da Resolução 181 da ONU: de acordo com a resolução, a Cidade deveria ser internacionalmente administrada, por conta de sua importância simbólica. Entretanto, como resultado da Guerra, a cidade foi dividida em duas: a “Cidade Antiga”, em posse dos jordanianos, e a “Cidade Nova”, em mão dos israelenses, uma divisão que se manteria até 1967.
Apesar de ter recebido legitimidade de grande parte da comunidade internacional, o novo país não foi reconhecido por nenhum de seus vizinhos, o que gerava um problema considerável, até porque, após a guerra, todo eles impuseram um boicote econômico, fazendo com que Israel precisasse substancialmente de ajuda financeira estrangeira para sobreviver. A viabilidade econômica da nova nação foi, no que tange ao campo externo, garantida não só por vultuosas doações de judeus eminentes de todo o mundo, mas também de reparações que o governo alemão pagou ao país como uma forma de se redimir perante à comunidade internacional pelo Holocausto.
“Nós aceitamos a resolução da ONU, mas os árabes não. Eles estão se preparando para fazer uma guerra contra nós. Se nós os derrotarmos e capturarmos o oeste da Galileia ou o território de ambos os lados das estradas para Jerusalém, essas áreas se tornarão parte do Estado. Por que nós devemos nos obrigar a aceitar as fronteiras que, em qualquer caso, os árabes não aceitam?”
(tradução nossa)
David Ben-Gurion para o Parlamento israelense em 1948 (disponível em https://www.conexaoisrael.org/o-estado-de-israel-declara-independencia/2013-04-12/yairmau).
A nakba palestina, como era de se esperar, trouxe feridas profundas na população palestina. Cerca de 720 mil pessoas foram obrigadas a abandonar seus lares, ou seja, ficaram de fora da linha de armistício, impossibilitadas de voltar para sua terra-natal. Tal fenômeno geraria o que se convém chamar de “refugiados palestinos”, uma questão humanitária que desde então assola a dinâmica da região e impede que um substantivo acordo de paz e de coexistência seja feito. O problema dos refugiados da Guerra de 1948 é tão grande que, mesmo a Organização das Nações Unidas tendo criado o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), também foi criada outra instância para prover assistência especificamente aos palestinos, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA, em inglês).
“Uma guerra estava acontecendo… em 14 de Julho, ele foi expulso de sua casa com o resto de sua família. Ele nunca retornou à cidade que amava. Nunca esqueceu as cenas que ocorreram em Lod* em 1948, tampouco se esqueceu da ideia de resistência violenta.”
*cidade em que nasceu e palco de uma das maiores expulsões de palestinos na Guerra de 1948 (50 a 70 mil)
(tradução nossa)
Presente na biografia de um dos futuros líderes do movimento palestino e defensor do marxismo-leninista árabe, George Habash.
Os refugiados da Guerra de 1948 não só deixaram seus lares com medo dos horrores do conflito: as forças armadas israelenses sistematicamente impuseram atos de horror nas populações árabes para que deixassem propositalmente seus lares. Vale a pena destacar que diversas figuras que vieram a se tornar a elite política de Israel nas décadas seguintes, com destaque para Ariel Sharon, ativamente participaram do conflito se envolvendo com grupos e táticas terroristas. O melhor exemplo dessa tática é o controverso Plano Dalet, que previa o uso da força para assegurar nas mãos israelitas todos os territórios destinados a Israel pela Resolução 181, sem distinção entre obstáculos árabes de fato e apenas moradores civis da região.
No fim das contas, o Estado judaico não repatriou a maioria esmagadora dos refugiados palestinos: chegou a repatriar uma ínfima minoria, mas muito mais com o intuito de fazer um gesto de boa fé para a comunidade internacional do que propriamente por responsabilidade. Não apenas isso, também incentivou fortemente a migração de judeus para o país, a fim de que ocupassem não só as vagas de emprego deixadas pelos árabes, mas também as casas recém vazias, impedindo que, num futuro, aqueles que voltassem as reclamassem. Esse programa de ação estava implícito em um dos pilares da vida política do novo país, na chamada Lei do Retorno, aprovada pelo Parlamento israelense de 1950:
“Todo judeu tem o direito de vir para esse país como imigrante
O visto de imigrante deve ser garantido a todo judeu que tenha expressado desejo de se estabelecer em Israel, a menos que o Ministro da Imigração entenda que o demandante
(1) está engajado em atividade diretamente contra o povo judeu; ou
(2) está inclinado a causar danos à saúde pública ou à segurança do Estado”
(tradução nossa)
Disponível em: https://www.knesset.gov.il/laws/special/eng/return.htm
Os fardos da guerra obviamente não poderiam cair apenas sobre os ombros de israelitas e judeus: os países árabes vizinhos também foram afetados. Muitos deles receberam os tais refugiados palestinos, incorporando mais um grupo dentro de suas fronteiras, o que, em alguns casos, causaria problemas enormes, devido à volatilidade social. Esses grupos de palestinos, durante a década de 50, diversas vezes entraram no território israelita vindo dos países vizinhos para promover ataques terroristas, fazendo com que, como resposta, Israel passasse a década atacando os territórios perto de suas fronteiras para punir os agressores. Tal tática deixaria profundamente irritado a próxima grande figura dos conflitos entre os dois grupos rivais: um então jovem oficial egípcio que não aceitava a derrota na Guerra.
Nesse contexto, uma série de jovens militares, presentes em campo no conflito de 1948, culparam as monarquias conservadoras de seus países, entronadas enquanto ainda eram mandatos coloniais, pelo fracasso, por entenderem que elas não se sacrificavam à causa árabe e agiram muito mais por pressão que por solidariedade. Esses oficiais, no início da década de 50, surgiriam como novos líderes em muitas das nações árabes por meio de golpes de Estado, assumindo um discurso nacionalista, populista e que seria amplamente utilizado no relacionamento com as superpotências da Guerra Fria. O exemplo mais claro desse movimento foi o Coronel Gamal Abdel Nasser, figura principal da Segunda Guerra Árabe-Israelense, de 1967.
FONTES DAS IMAGENS (ordem de aparição):
Região historicamente conhecida como Palestina: https://imgur.com/N634tIs
Divisão da Palestina idealizada pelas Nações Unidas em 1947, na Resolução 181: https://unispal.un.org/UNISPAL.NSF/0/164333B501CA09E785256CC5005470C3
Forças israelenses dão as boas vindas ao Primeiro Ministro David Ben-Gurion: https://www.jpost.com/israel-news/rare-photo-collection-from-israeli-war-of-independence-up-for-auction-589179
Território do Estado de Israel após a Guerra de Independência: https://www.jewishvirtuallibrary.org/map-of-israel-s-pre-1967-borders
Protesto de um refugiado palestino contra o fim da ajuda norte-americana ao UNRWA: https://www.middleeastmonitor.com/20180906-the-debate-on-unrwa-takes-focus-away-from-the-realities-of-palestinian-refugees/
Movimento dos Oficiais Livres no Egito: https://fanack.com/egypt/history-of-egypt/military-revolution-and-republic/
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