Arena GEOM Sports #2: Jogos Olímpicos de Paris 2024 e a proibição do uso do véu islâmico

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5 min readFeb 8, 2022

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Autora: Francielle Araújo Pains

Os Jogos Olímpicos são a maior celebração desportiva do mundo em termos de número e variedade de desportos nas competições, onde o número de atletas presentes e o número de pessoas de diferentes nações reunidas ao mesmo tempo, no mesmo local, num espírito de competição amigável estão concentradas. Os jogos são organizados e realizados a cada quatro anos, em que incluem uma edição de verão e uma de inverno. As competições contam com atletas de todos os 206 Comitês Olímpicos Nacionais e da Equipe Olímpica de Refugiados do COI para serem elegíveis para competir.

A primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos foi realizada em Atenas, na Grécia, em 1896, enquanto a primeira edição de inverno foi realizada em Chamonix, na França, em 1924. Desde 1994, os Jogos Olímpicos alternam entre uma edição de verão e de inverno a cada dois anos dentro do período de quatro anos de cada Olimpíada (IOC, 2021).

A próxima edição dos Jogos Olímpicos, através do Comitê elegeu Paris como sede em 2024, o país vencedor propôs uma nova visão em relação às Olimpíadas durante sua candidatura. O governo francês apresentou a realização do evento como símbolo de uma plataforma global inclusiva com planos que apresentam 95% de instalações existentes ou temporárias, onde cada uma terá um legado claro e definido alinhado aos planos de desenvolvimento de longo prazo da cidade luz. A celebração esportiva acontecerá ao longo do Rio Sena e na nova Vila Olímpica. As instalações estarão a 15 minutos do centro de Paris, perto dos pontos de referência do centro da cidade como a Torre Eiffel e o Grand Palais.

Paris 2024 elencou o objetivo de sediar os Jogos mais sustentáveis de todos os tempos. O governo francês desenvolveu uma estratégia de sustentabilidade e legado totalmente alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, contando com o apoio do WWF França, do Yunus Centre e da UNICEF França. A estratégia adotada foi diminuir em 55% as emissões poluentes durante o evento em comparação ao Jogos Olímpicos de Londres em 2012, referência no assunto sustentabilidade em eventos esportivo (IOC, 2021).

Contudo, a propaganda de plataforma global inclusiva exibida e veiculada nas plataforma digitais dos Jogos Olímpicos e do governo francês na promoção do evento não condiz com as práticas internas do país. A intolerância religiosa contra os praticantes da fé islâmica na França tem um viés e discurso político extremamente agressivo por parte dos agentes governamentais, bem como é endossado pela grande maioria da população que comunga das mesmas ideias. Há uma direção mais ofensiva destinada principalmente as mulheres islâmicas devido ao uso do véu islâmico, os franceses estabelecem um comportamento hostil à população imigrante oriunda do Oriente Médio. A Lei n. 1.192 de 2010, promulgada pelo então presidente Nicolas Sarkozy, versa no Art 1º Seção 1 que — ninguém pode, no espaço público, usar uma roupa destinada a esconder o rosto. Em sua Seção 2, a lei diz, I. ― Para a aplicação do artigo 1.º, o espaço público é constituído pelas vias públicas, bem como pelos locais abertos ao público ou atribuídos a serviço público. II. ― A proibição prevista no artigo 1.º não se aplica se o vestuário for prescrito ou autorizado por disposições legislativas ou regulamentares, se for justificado por motivos de saúde ou profissionais, ou se estiver inserido no quadro de práticas desportivas, festivais ou ou eventos tradicionais (FRANÇA, 2021).

Diante do exposto, é possível notar as contradições dos discursos de promoção dos Jogos Olímpicos e o que é realmente praticado na França. A Lei 1.192 acaba sendo usada para praticar discriminação contra mulheres que fazem uso do hijab, mesmo que na referida lei que se justicado o uso em práticas desportivos haveria a permissão. Porém, o Senado francês votou a favor da emenda que prevê a proibição do uso do véu islâmico em comeptições esportivas, esta medida se estenderá para as Olimpíadas de 2024 em Paris.

A proposta foi capitaneada pelo partido político de direita Les Républicains de cunho liberal-conservador de tradição gaullista, o projeto recebeu 160 votos favoravéis e 143 contra. Segundo matéria do jornal Aljazeera, os senadores pronunciaram-se e justificaram seus votos favoráveis alegando que “os lenços de cabeça podem colocar em risco a segurança dos atletas que os usam quando praticam sua disciplina”(ALJAZEERA, 2022).

Isso irá prejudicar atletas muçulmanas que vêm se preparando ao longo dos quatro anos para competir nos Jogos Olímpicos. Essa emenda, assim como a lei 1.192, afastam ainda mais as mulheres dos espaços sociais, condenando-as aos espaços restritos e privados. Essa proibição não é a primeira vez a acontecer nos Jogos Olímpicos, em 2011, segundo Kampff (2018), a seleção de futebol feminino do Irã foi eliminada das eliminatórias para os jogos olímpicos de Londres 2012 porque as atletas se recusaram a tirar o hijab na partida contra a Jordânia. A decisão da FIFA repercutiu, e várias entidades muçulmanas, além de outras de direitos humanos, como também atletas, se uniram em uma campanha chamada “Let us play”(KAMPFF, 2018).

Campanhas de defesa para que atletas mulheres tenham o direito de usarem o hijab ganharam força em 2022 durante a votação do Senado francês, a #handsoffmyhijab foi promovida pela modelo Rawddah Mohamed, com o intuito de manifestar a liberdade do uso do véu islâmico por mulheres que pertencem a minorias étnicas. A campanha também pontua que as muçulmanas possam contar suas narrativas e possam exercer seus valores religiosos.

REFERÊNCIAS

ANTONIA, M. Rawdah Mohamed, a modelo com o hijab chega ao topo da Vogue. Midia Max, 2021. Disponível em: https://midiamax.uol.com.br/blog/2021/rawdah-mohamed-modelo-com-o-hijab-chega-ao-topo-da-vogue. Acesso em: 06 jan. 2022.

ELAN, P. Model’s ‘hands off my hijab’ post sparks protest over France’s proposed ban. The Guardian, 2021. Disponível em: https://www.theguardian.com/fashion/2021/apr/25/model-rawdah-mohamed-hands-off-my-hijab-protest-france-ban. Acesso em: 06 jan. 2022.

FRANÇA. Lei n. 1.192, de 11 de outubro de 2010. Proíbe a ocultação do rosto em espaços públicos. Lex: legislação estadual, Paris, n. 675, 13 de jul. de 2010. Disponível em: https://www.legifrance.gouv.fr/loda/id/JORFTEXT000022911670/. Acesso em: 06 jan. 2022.

FRICKE, G. Usando véu e calça, egípcias estreiam e entram para história olímpica do país. GE Globo, 2016. Disponível em: http://ge.globo.com/olimpiadas/volei-de-praia/noticia/2016/08/islamismo-veu-e-calca-egipcias-sao-1-dupla-da-historia-do-pais-na-olimpiada.html. Acesso em: 06 jan. 2022.

IOC. A visão de Paris 2024. Olympics, Lausanne, 2022. Disponível em: https://olympics.com/pt/olympic-games/paris-2024. Acesso em: 06 jan. 2022.

IOC. Celebrate Olympic Games: The modern Olympic Games are the world’s foremost multi-sports event. Olympics, Lausanne, 2022. Disponível em: https://olympics.com/ioc/celebrate-olympic-games.. Acesso em: 06 jan. 2022.

KAMPFF, A. Entre a fé e o esporte — o uso do véu islâmico em competições. Lei em Campo, 2018. Disponível em: https://leiemcampo.com.br/entre-a-fe-e-o-esporte-o-uso-do-veu-islamico-em-competicoes/#:~:text=As%20mulheres%20mu%C3%A7ulmanas%20usam%20o,%C3%A0s%20federa%C3%A7%C3%B5es%20esportivas%20do%20pa%C3%ADs. Acesso em: 06 jan. 2022.

NEWS AGENCIES. French senators vote to ban hijab in sports competitions. ALJazeera, 2022. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2022/1/19/french-senators-vote-to-ban-the-hijab-in-sports-competitions. Acesso em: 06 jan. 2022.

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Somos um Grupo de Estudos em Oriente Médio, idealizado por alunas do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

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