Texto por: Elvis Silva
O uso político dos esportes, apesar de aparentar ser uma novidade, é tão antigo quanto a própria atividade esportiva, dada a natureza social das competições. A FIFA diz que o futebol tem suas raízes na China, mais de dois milênios antes de Cristo, grande parte dos esportes modernos nasceram na Grécia antiga, assim como os Jogos Olímpicos, em Roma, a política do pão e circo representados pelo ainda existente Coliseu, por fim, no mundo árabe não foi diferente, uma vez que as atividades esportivas eram parte do cotidiano antes do colonialismo.
Na Era Contemporânea, o século XX foi o momento em que o uso político do esporte foi mais explorado e com diversas escalas. A nível local vem sendo utilizado por povos e minorias étnicas na promoção dos povos, como a Catalunha. No contexto regional, pode ser usado para o controle das massas, ganhar popularidade e até para promover a unidade nacional, como é feito por países novos, assim como a África do Sul após o fim das políticas do apartheid. A nível global são utilizados como instrumento de propagação de poder, primeiro pelas próprias organizações que as controlam e segundo pelos Estados Nacionais, como feito pela Argentina na Copa do Mundo (1978). Assim, faremos um panorama geral do uso ideopolítico do esporte no Mundo Árabe.
Partindo do Norte da África, o esporte é presente durante toda a história recente do Marrocos, tanto no que diz a sua proteção a ameaças internas, como a disputa com o Saara Ocidental, quanto para sua afirmação política e econômica como Estado-Nação. O país mesmo antes da independência dava atenção ao esporte, principalmente o futebol, que após a independência foi amplamente utilizado por Hassan II, para o controle de massas, teve sua primeira participação na Copa do Mundo de Futebol em 1970, os patrocínios em nome do Rei eram comuns nas competições esportivas, como “A Taça Real”, tornaram-se corriqueiras, e para a inserção do Marrocos no cenário internacional, fomentou a produção de diversos campeões mundiais e olímpicos de destaque e influência no continente africano, como Brahim Boulami, assim como, também chama atenção do Marrocos, pelas repetidas tentativas de organizar megaeventos, tendo sido candidato a Copa do Mundo de Futebol em 1994, 1998, 2006, 2026 e em vias de articulação na candidatura para a edição de 2030, todavia já sediou a Mundial de Clubes em 2013 e 2014.
A Argélia independente e revolucionaria adotou um Estado socialista, assim como nos demais países socialistas, o esporte foi tratado como prioridade, então foram feitos investimentos massivos em infraestrutura esportiva, no que resultaram na classificação inédita para a Copa do Mundo de Futebol em 1982 e 1986, e na organização e vitória da Copa Africana de Nações (1990), também sediou os Jogos do Mediterrâneo (1975) e os Jogos Africanos (1978), numa tentativa de apresentar os impactos do Estado socialista. Por outro lado, o esporte ajudou a FLN (Frente de Libertação Nacional) a manter o controle popular e do poder do país, durante a crise da moeda argelina, motivada por quedas do preço do petróleo.
Depois da Guerra Civil da Argelina se estender por toda a década de 1990, o país perdeu a força esportiva que tinha no passado até se classificar para a Copa de 2010 e encaminhar bons resultados em 2014, tendo novamente sediado Copa Africana de Nações (2019) simbolizando a reinserção do país no cenário internacional depois do conflito civil, tal fato enfatizado pelo ex- Presidente Bouteflika, como resultados da sua política de reconciliação nacional.
A Tunísia independente, através da articulação do Habib Bourguiba queria evidenciar sua característica de identidade plural e mediterrânea, politicamente neutra, “nem ocidente, nem oriente” e exercer uma função central no Mediterrâneo, para isso organizou os Jogos do Mediterrâneo (1967).
Muammar al-Gaddafi não era muito fã de esporte, mas era um crítico da FIFA e a forma como a entidade adotava sua política expansionista, seus filhos foram atletas e dirigentes esportivos, além de explorar a popularidade do futebol e atenção que teve durante a Copa Africana (1982).
O esporte no Egito é enorme do ponto de vista cultural e político, com o apoio de Iraque, Camboja e Líbano, boicotou as Olímpiadas de 1956 pela invasão ao Canal de Suez por Israel, Reino Unido e França. Aderiu ao boicote africano as Olímpiadas de 1976, em retaliação a Nova Zelândia, que mantinha relações com a África do Sul do apartheid, também apoiou o boicote dos estadunidenses aos soviéticos, pela Invasão ao Afeganistão (1980).
Os dois maiores clubes do país são bem politizados, o Zamalek foi associado a monarquia egípcia, já o Al-Ahly é oposição, de características nacionalistas, populistas, republicanos e antimonárquico. O ex- Presidente Abdel Nasser, não era muito adepto ao futebol, mas achava importante a sua presença em jogos importantes, para estimular a população a ir aos estádios, uma vez que a renda da bilheteria era usada para fins militares.
No período mais recente, durante o governo Mubarak, o país tinha o objetivo de enfatizar a cultura e a política do país, para isso organizava campeonatos continentais e internacionais, como a Copa Africana (2006) e Copa do Mundo Sub-20 da FIFA (2009), depois da Primavera Árabe a estratégia foi interrompida.
Na Turquia o futebol tem muito significado, principalmente na cidade de Istambul, separada pelo Estreito de Bósforo, onde Galatasaray e Fenerbahçe protagonizam o Derbi Intercontinental, o primeiro de origem Oeste da cidade, portanto europeia e considerada elitista e o segundo de origem a Leste, asiático e em bairro pobre, o que deu ao clube características populares.
O país que nos anos 1990, atravessou pelo processo de ocidentalização, já abandonado, que levou o país a estar mais próximo dos europeus ocidentais, então abrigou diversos torneios como a final da Liga dos Campeões (2005) e possui uma etapa do Grande Prêmio de Formula 1 e apresentou proposta para as Olimpíadas de 2020, com lema em alusão ao Estreito de Bósfoto e a ligação entre continentes “Bridge Together”.
Os países da Península Arábica vêm tendo uma atitude similar desde a Guerra do Golfo (1990–1991), usando a visibilidade do esporte como instrumento de proteção da sua afirmação e soberania, adotando a diplomacia esportiva como parte da política de Estado dos países, através da organização megaeventos, desenvolvem esportes internamente e patrocina múltiplas instituições e competições internacionais, buscando diversificação da sua econômica, modernização dos países, reconhecimento e consolidação do país no cenário internacional, inserção no mapa turístico global, dissociação da imagem terrorista imposta pelo ocidente, dentre outros fatores que são elencados a partir do esporte internacional.
Esse modelo de desenvolvimento é parte de diversos megaeventos organizados pelos país, como os Jogos Asiáticos (2006), Copa das Nações da Ásia de Futebol (2011), o Campeonato Mundial de Handball (2015), Mundial de Clubes De Futebol (2020), o Grande Prêmio de Formula 1 (desde 2021), Copa Árabe de Futebol (2021) e a Copa do Mundo de Futebol (2022), que deixará, não apenas o país em evidencia, mas o Oriente Médio e os países árabes em evidencia, pelo fato inédito, além de investimentos em patrocínios esportivos e clubes de futebol, como o PSG (Paris Saint-Germain).
A estratégia é correlacionada ao sportswashing ou “lavagem desportiva”, uma estratégia de propagação de poder, a qual o Catar vem sendo associado, de usar o esporte e os megaeventos para encobrir infrações aos direitos humanos, de imigrantes refugiados e mulheres, contudo, o modelo Catar é considerado de sucesso e foi sendo adotado pelos vizinhos, afinal todos querem sediar uma Copa do Mundo.
O Barém, segue o modelo catari, e o Grande Prêmio do Barém de Formula 1 é o maior megaevento que o país recebe, por anos a família Khalifa foi acusada de fazer uso político e comerciais do evento em benefício próprio e em detrimento da comunidade xiita, desencadeando uma onda de protestos no país, até que a edição de 2011 foi cancelada.
A Arabia Saudita, geralmente, tem seus fins/começo de ano bem intensos, são quando as supercopas europeias de futebol e a maioria dos demais eventos ocorrem no país, que também possui seu Grande Prêmio, o em Gidá. Recentemente o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, que lidera o “Fundo de investimento Público” fez a aquisição do Newcastle, da Inglaterra.
Os Emirados Árabes Unidos são que estão mais próximos em nível de investimento e prestigio do Catar, já tendo sediado o Mundial de Clubes em cinco oportunidades (2009, 2010, 2017, 2018 2021), também possuem uma etapa de Formula 1, o Grande Prêmio de Abu Dhabi e são donos de onze times de futebol pelo globo, o maior deles, o Manchester City.
Desta forma os países buscam a presença e competem a influência, e a hegemonia do Golfo Persico e no Oriente Médio, como um todo, uma vez que o Catar possui divergências diplomáticas com Emirados árabes, Arabia Saudita e Iraque.
O caso Israel e Palestina também reverbera no esporte, tanto que desde 1994 a Confederação Israelense de Futebol deixou a AFC (Associação Asiática de Futebol) e é filiada à UEFA (União das Associações Europeias de Futebol), também não integra a UAFA (União das Associações Árabes de Futebol), por divergência com os demais países árabes relacionados ao tema Palestina. Há também o caso do Palestino, time do Chile, local da maior colônia de palestinos no mundo, que fundaram o clube para homenagear a terra da qual vieram.
Por fim, podemos concluir que os países do mundo árabe adotaram o esporte como políticas de Estado, desde suas concepções modernas para a inserção dos países no cenário internacional, para competir a hegemonia regional com os vizinhos e até como parte dos seus planos de desenvolvimento socioeconômico.
REFERÊNCIAS:
BONIFACE, P. Géopolitique du sport. Paris: Armand Colin, 2014. ISBN: 978–22–002–8961–4.
FINANCIAL TIMES. Why the Gulf states are betting on sport. Disponível em: https://www.ft.com/content/15bc48b6-0c8c-11ea-b2d6-9bf4d1957a67. Acesso em: 17 fev. 2022.
REMY-MILLER, Keegan. Sports in the Desert: How Qatar, Abu Dhabi, and Dubai are employing sports to make economic, political, and international gains. 2017. Master´s Thesis — Graduate Program in Global Studies. The Faculty of the Graduate School of Arts and Sciences, Brandeis University. Waltham, Massachusetts.
MAHFOUD A. Sport and Political Leaders in the Arab World Histoire Politique , 2014/2 (n° 23), p. 142–153. DOI: 10.3917/hp.023.0142. URL: https://www.cairn.info/revue-histoire-politique-2014-2-page-142.htm