Autora: Anna Karolline Bastos
INTRODUÇÃO
O conceito Orientalismo foi estudado e definido pelo crítico literário e ativista palestino Edward Wadie Said, durante a década de 1970 e se tornou um clássico dos estudos culturais na contemporaneidade, pois é de suma relevância para identificar, criticar e combater discursos, preconceitos e estigmas criados durante o ápice da política imperial (século XIX) e que existem, infelizmente, até os dias atuais.
Said, filho de árabes cristãos, nasceu em 1935 na Palestina e migrou para os Estados Unidos aos 17 anos, onde obteve sua formação acadêmica. Licenciou-se em Princeton e doutorou-se em Literatura Comparada na Universidade de Harvard. Em seu trabalho mais famoso “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente”, publicado em 1978, Said busca investigar os vínculos entre o colonialismo, sobretudo o anglo-franco-americano, e o conhecimento ocidental acerca do Oriente. Utiliza, para esse fim, de uma interpretação crítica do amplo corpo de materiais literários, eruditos e científicos produzidos no ocidente sobre a porção Leste e dos estereótipos difundidos por esses textos.
O autor usa como pontapé inicial a geografia imaginativa: para ele o Oriente não é natural (não existe por si só), é uma ideia (ou devaneio), porque ele nasce, primordialmente, da observação, do julgamento e da representação subjetiva do oriental nos poemas, nos romances, nos documentos e na mídia. Daí que surge a imagem do Oriente como exótico e inferior e por fim, o que Said denomina como Orientalismo.
O TERMO
De acordo com Said (2007), o termo Orientalismo pode se referir a três elementos interdependentes: a disciplina acadêmica, o estilo de pensamento e o discurso ocidental concernente ao Oriente. Em suas palavras
Orientalismo é o termo genérico que tenho empregado para descrever a abordagem ociental do Oriente; Orientalismo é a disciplina pela qual o Oriente era (e é) abordado de maneira sistemática, como um tópico de erudição, descoberta e prática. Mas além disso, tenho usado a palavra para designar o conjunto de sonhos, imagens e vocabulários disponíveis para quem tenta falar sobre o que existe a leste da linha divisória (SAID, 2007, p 115).
O Orientalismo para Said (2007), em síntese, é um poder intelectual criado no Ocidente a partir de estudos, mitos, etc. que criou uma ‘noção’ inquestionável para definir o Oriente, o ser oriental e, mais importante, para determinar uma relação de poder entre os eixos geográficos imaginados. Isso é possível pois este banco de informações vem de uma família de ideias e um conjunto unificador de valores que explicavam de forma generalizada e preconceituosa o comportamento e a mentalidade dos orientais.
O Orientalismo nasceu (e, depende), da distinção arbitrária, feita pelo Ocidente, entre o Leste e o Oeste. Isto é, do discernimento básico entre ser ocidental — “nós, o conhecido”, e ser oriental — “eles, o desconhecido”. O Ocidente, nessa perspectiva, é colocado como poderoso, civilizado e moderno, ou seja como superior, e o Oriente como frágil, ingênuo e atrasado e, portanto, como suscetível à submissão .
O autor defende (SAID, 2007, p. 29), que:
Tomando o final do século XVIII como ponto de partida aproximado, o Orientalismo pode ser discutido e analisado como a instituição autorizada a lidar com o Oriente — fazendo e corroborando afirmações a seu respeito, descrevendo-o, ensinando-o, colonizando-o, governando-o: em suma, o Orientalismo como um estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente.
RELEVÂNCIA HOJE
Como supradito, o texto de Said se mantém relevante hoje e serve como norte (ou paradigma) para os estudos descoloniais porque nos lembra que, primeiro, projeções não têm correspondência direta com a realidade e, segundo, que todo conteúdo é feito por alguém e para alguma finalidade.
O Orientalismo ou a “a abordagem ociental do Oriente”, por exemplo, reflete a relação de hegemonia complexa entre as duas civilizações, pois os autores eram (e ainda são) pertencentes de potências que possuem interesses nesses espaços. Conforme o autor
se é verdade que nenhuma produção de conhecimento nas ciências humanas jamais pode ignorar ou negar o envolvimento de seu autor como sujeito humano nas suas próprias circunstâncias, deve ser também verdade que, quando um europeu ou americano estuda o Oriente, não se pode haver negações das principais circunstâncias de sua realidade: ele se aproxima do Oriente, primeiro como um europeu ou americano, em segundo lugar como um indivíduo (SAID, 2007, p. 39).
O imaginário colonial e racista de que os orientais “opõem-se à clareza, à franqueza e à nobreza da raça anglo-saxônica” (SAID, 2007, p. 71), de que são todos perigosos, incivilizados, irracionais, exóticos, etc. nascem justamente dessa perspectiva (a do interesse) e é, ainda hoje, difundido nas retratações do jornalismo internacional, na concepção de defesa nacional, no cinema, na TV, nos livros e, por vezes, até em movimentos sócio-políticos.
Conhecer os estudos de Edward Said é de extrema importância, não só para àqueles interessados em estudar o Oriente a partir de um visão descolonial, mas também para saber filtrar os estereótipos que nos foram ensinados. Somente a partir desse despertar, nós, pessoas ocidentais, poderemos ajudar a combater o que nós mesmos criamos: a visão distorcida do ser oriental.
REFERÊNCIA
SAID, Edward W. Orientalismo: o oriente como invenção do ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.