Investimentos árabes no futebol europeu: o caso Paris Saint Germain
O futebol sempre foi um esporte conhecido no mundo todo, pode-se considerar como sendo um dos esportes coletivos mais populares do mundo. Com origens na China e ressurgido durante o século XIX na Inglaterra, o futebol moderno abrange todas as classes sociais, praticado como um passatempo ou profissionalmente, é sem dúvida um modo de vida. Neste sentido, é possível perceber que a linha de fundo do gramado deixou de ser o limite final do jogo, que hoje movimenta milhões de reais no mercado mundial de transferências e investimentos.
Este é o caso do Paris Saint-Germain Football Club (PSG) fundado em 1970 em Paris, na França. O clube que uniu dois times antigos da cidade, foi comprado em maio de 2011 pela Qatar Sports Investment (QSI), o fundo de investimentos ligado à família real do governo do Catar, no Oriente Médio. De acordo com dados do CIES Football Observatory, 70% das ações do clube foram compradas por 50 milhões de euros, o que na época eram 114 milhões de reais. Após dois anos da primeira negociação, a QSI pagou o montante de 30 milhões de euros nas ações restantes, se tornando dona absoluta do time francês (CIES Football Observatory, 2020).
O futebol no Catar é um dos setores que mais crescem por ano, com milhares de negócios desde de 2007, houve uma disparada no número de contratações e também na construção da imagem do esporte em terreno árabe. Neste sentido, não é de se espantar as grandes movimentações em torno da contratação de jogadores, treinadores e comissão técnica, e ainda, a disputa para sediar grandes eventos esportivos como o Mundial de Clubes, a Copa Asiática de Nações e a Copa do Mundo de Futebol da FIFA. Exemplo de tal atuação é o centro de treinamento de atletas Aspire Academy, com sede em Doha, é um dos complexos esportivos construídos do zero para receber atletas e estrelas do futebol mundial (GLOBO ESPORTE, 2021).
O caso da aquisição do PSG pelo fundo catariano de investimentos em esporte, também pode ser considerado um exemplo do desenvolvimento do país neste setor. Atualmente, o CEO e presidente do clube Nasser al-khelaifi ligado diretamente ao emir Tamim bin Hamad Al-Thani, é o primeiro não-europeu a se tornar membro do Comitê Executivo da União Europeia de Futebol Associado (UEFA). Ainda sobre o time francês, uma demonstração clara do poder que a QSI dispõe é a contratação do atacante brasileiro Neymar Jr, que ficou conhecida como uma das mais caras da história do futebol internacional, movimentando cerca de 222 milhões de euros apenas em um jogador.
No campo das Relações Internacionais, um termo comum que gera grande debate entre os estudiosos é o conceito de poder. Embora não haja um consenso do significado, uma das principais referências é o autor e cientista político Joseph Nye. Neste sentido, para ele, poder se refere à ‘‘capacidade de se obter resultados desejados e à habilidade de influenciar os outros para que seus objetivos sejam alcançados’’ (NYE, 2004).
O caso da compra do PSG pelo fundo catariano pode ser considerado como uma demonstração de poder. Levando em consideração que exibe às telas do mundo, não somente a quantidade de dinheiro que o governo e concomitantemente, a QSI possui, como também, o soft power, que é a habilidade de um Estado em exercer o seu poder por meio da influência e coerção (NYE). Sobre este segundo conceito, uma maneira simples de identificar o esporte como instrumento de soft power pelo Catar, é a linha do tempo de eventos esportivos que o emirado recebeu para a construção da imagem do país na conjuntura internacional.
1973 — O brasileiro, Santos Futebol Clube jogou contra o Al-Ahli SC (um dos mais antigos clubes do país).
1979 — Criação do Comitê Olímpico do Catar
1980 — Reconhecimento pelo Comitê Olímpico Internacional
2006 — Sede dos Jogos Asiáticos
2008 — Lançamento do plano Qatar National Vision 2030
2015 — Sede do Mundial de Handebol masculino
2016 — Visita do xeique Al Thani no Brasil, onde realizou um convite ao time sub-17 da Chapecoense para treinar na Aspire
2019 — Sede do Mundial de Atletismo
2022 — Sede da Copa do Mundo FIFA
Dessa maneira, é possível perceber que o plano Qatar National Vision 2030, que tem como objetivo principal, a transformação da imagem do país internacionalmente, é uma das estratégias de consolidação do Catar como uma referência de progresso na região do Oriente Médio e consequentemente, no sistema internacional. Nesse sentido, vale ressaltar que a área esportiva e em especial, o futebol, é apenas um dos artifícios do plano, que inclui políticas de desenvolvimento ainda mais ambiciosas tanto no âmbito doméstico quanto no estrangeiro (LEITE,2017).
Apesar disso, não se pode deixar de mencionar que o Catar, constantemente, é acusado pelos seus vizinhos como Arábia Saudita e Bahrein, de financiar grupos terroristas. E para além, existem diversos relatórios de ONGs como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, sobre violações graves de direitos humanos no país, inclusive nas obras para sediar os eventos esportivos (CREPALDI; DE MATOS, 2021).
Enquanto o país realiza a tentativa de se inserir na arena de poder das Relações Internacionais, o mundo visualiza uma crescente manifestação de interesses geopolíticos por meio do esporte. Embora se admire o progresso do país, é fundamental que o lado negativo deste plano seja também mostrado ao público, movimento que não foi realizado pelas potências do ocidente, como os EUA. Logo, será possível observar este curso não somente como um objeto de estudos e análise, como também uma dinâmica que possui legibilidade e sustentação.
REFERÊNCIAS
CAVALCANTI, Vitor; TORCEDORES.COM. PSG custou ‘’mixaria’’ e hoje é um dos mais valiosos do mundo: O PSG foi decretado campeão francês da atual temporada, mesmo sem o campeonato ter sido encerrado em campo, por conta da pandemia da Covid-19. [S. l.], 10 jun. 2020. Disponível em: https://www.torcedores.com/noticias/2020/06/psg-custou-mixaria-valioso-mundo. Acesso em: 21 jan. 2022.
GLOBO ESPORTE. Academia de Futebol, versão Catar: conheça o CT onde o Palmeiras vai treinar no Mundial: Campos de treino do Palmeiras pertencem à Aspire Academy, complexo financiado pelo governo. Doha e São Paulo, 4 fev. 2021. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/times/palmeiras/noticia/academia-de-futebol-versao-catar-conheca-o-ct-onde-o-palmeiras-vai-treinar-no-mundial.ghtml. Acesso em: 21 jan. 2022.
GLOBO ESPORTE. Muito além da vaga na final: por que City x PSG envolve também geopolítica no Oriente Médio: Título da Champions é o sonho dos clubes alavancados por projetos bilionários de duas nações rivais: Emirados Árabes e Catar têm rompimento diplomático de 2017 a janeiro de 2021. [S. l.], 4 maio 2021. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/liga-dos-campeoes/noticia/muito-alem-da-vaga-na-final-por-que-city-x-psg-envolve-tambem-geopolitica-no-oriente-medio.ghtml. Acesso em: 21 jan. 2022.
GOMES, Mainara. Futebol e Soft Power: o caso do Catar por meio do PSG. [S. l.], 23 jun. 2021. Disponível em: https://www.onao.com.br/post/futebol-e-soft-power-o-caso-do-catar-por-meio-do-psg. Acesso em: 21 jan. 2022.
NEW ORDER. Geopolítica e futebol: Neymar no PSG e a estratégia de soft power do Catar. [S. l.], 3 ago. 2017. Disponível em: https://medium.com/neworder/geopol%C3%ADtica-e-futebol-neymar-no-psg-e-a-estrat%C3%A9gia-de-soft-power-do-catar-c3649228c6f. Acesso em: 20 jan. 2022.
PARIS SAINT-GERMAIN (PSG). O Paris Saint-Germain Football Club, também conhecido como Paris Saint-Germain ou pela sua sigla PSG, é um clube de futebol profissional francês, com sede em Paris. [S. l.]: Made for Minds, 2021. Disponível em: https://www.dw.com/pt-002/paris-saint-germain-psg/t-44578846#:~:text=O%20Paris%20Saint%2DGermain%20Football,franc%C3%AAs%2C%20com%20sede%20em%20Paris. Acesso em: 21 jan. 2022.
SABINO, Alex; DIÁRIO DE CUIABÁ (Cuiabá). História e crescimento do futebol no Qatar passam por brasileiros. Doha: Da Folhapress, 21 fev. 2020. Disponível em: https://www.diariodecuiaba.com.br/esportes/historia-e-crescimento-do-futebol-no-qatar-passam-por-brasileiros/527673. Acesso em: 20 jan. 2022.