Jingle Bell: como funciona o Natal no Oriente Médio

GEOM UFU
7 min readDec 22, 2021

--

Autoras: Maria Eduarda Costa e Vitória Pádua

O Natal é uma comemoração cristã que celebra o nascimento de Jesus de Nazaré, figura divina de maior importância no cristianismo reconhecido como o Filho de Deus. A história e as primeiras interpretações da vida de Jesus estão descritas no Novo Testamento bíblico,no qual Ele é retratado como um Messias que representou a restauração da ação e do poder de Deus no mundo (WOODHEAD, 2002). A data de 25 de dezembro foi adotada simbolicamente, definida no ano 350 d.C pelo papa Júlio I.

Embora o cristianismo seja a maior religião do mundo em termos numéricos de seguidores (cerca de 30% da população mundial), não possui uma presença tão significativa no Oriente Médio, cuja população é 93% muçulmana. (GLOBAL RELIGIOUS FUTURES, 2010). Dessa forma, por questões religiosas o Natal não é tão difundido na região. Segundo a religião islâmica, Alá (Deus único, supremo e onipotente) concedou ao profeta Maomé (c.570–632 CE) o Alcorão, que é palavra literal de Deus revelada, no qual reúne os principais dogmas do islã. Vale mencionar que a tradição islâmica reconhece figuras divinas presentes na fé cristã e judaica, de modo que Abraão, Moisés, e Jesus são aceitos como parte de corrente profética divina que culminou na missão de Moisés (WOODHEAD, 2002).

Entretanto, é necessário compreender que o Oriente Médio é uma região vasta, complexa e híbrida na qual os diferentes países possuem tradições culturais diferentes entre si. Dessa forma, vale traçar um panorama geral de como as comemorações natalinas se manifestam (ou não) em determinados países. O objetivo do texto é descrever brevemente as diferentes tradições, costumes e práticas que existem nesses países durante essa época do ano.

Palestina (Belém)

Na Palestina, em Belém (que é considerada o local de nascimento de Jesus pela fé cristã), a data é muito celebrada por cristãos locais e também turistas, que visitam a região nessa época do ano. A celebração se inicia nove dias antes no Natal, com orações, canções e vigílias; e na véspera o Patriarca de Jerusalém realiza uma tradicional procissão pela cidade, onde os fiéis se reúnem na Praça da Manjedoura e na Igreja da Natividade à meia noite. (ALBAWABA, 2011).

Líbano

Dentro dos países do Oriente Médio, o Líbano é aquele que contém maior número de cristãos, compondo 38% de sua população total. (FUTURE GLOBAL PROJECT, 2010). Desse modo, o clima festivo se evidencia mais intensamente, com comunidades cristãs exibindo luzes e enfeites natalinos tipicamente ocidentais. No ambiente doméstico, é mais comum que as famílias construam presépios que focalizam um centro de oração em casa. Na capital Beirute ocorrem grandes eventos comemorativos, frequentados até mesmo por pessoas não cristãs. Logo, é possível que muçulmanos e cristãos se juntem na comemoração da temporada. (ALBAWABA, 2011)

Jordânia

A Jordânia também apresenta uma população majoritariamente muçulmana (mais de 90%). No entanto, as comunidades cristãs tanto católicas quanto ortodoxas estão concentradas na capital Amã ou no Vale do Jordão e celebram o natal no dia 25 de dezembro, com a tradicional ceia, árvore de natal e a troca de presentes. Até mesmo os shoppings centers exibem enfeites natalinos típicos. Como o feriado também foi comercializado (como ocorre no Ocidente), os muçulmanos também aproveitam o clima festivo em conjunto com os cristãos (ALBAWABA, 2011)

Turquia

Já na Turquia a data não é celebrada e não é nem mesmo considerada feriado nacional. A população cristã no país é inferior a 1%, na sua maioria migrantes e refugiados sírios e iranianos, que frequentam as igrejas cristãs para celebração nessa época do ano. No entanto, em cidades mais cosmopolitas (Istambul) é comum a presença de decorações e motivos natalinos, que demonstram mais a influência cultural ocidental do que o aspecto religioso (WHY CHRISTMAS, 2021).

Irã

Assim como a Turquia, o Irã não celebra e não estabelece o natal como um feriado nacional. A minoria cristã que vive no país é composta na maior parte de imigrantes armênios, que celebram o natal de maneira contida. Contudo, existe um evento celebrado no país nessa época do ano chamado “ Yaldã” (Shab-e Yalda) que ocorre no solstício de inverno (21 de dezembro). Na cultura persa/iraniana, é um momento onde as famílias se reúnem para comer, beber e recitar poesia. É comum o consumo de frutas vermelhas como a melancia e a romã, já que elas simbolizam o nascer do sol depois do dia mais curto do ano (WHY CHRISTMAS, 2021).

Iraque

Apesar das autoridades políticas iraquianas terem assinado um reconhecimento da festa de Natal no país em 2008, apenas no ano de 2021 o Natal é uma festa nacional. Isso significa que a data tem o status de celebração pública para todos os cidadãos, não apenas para os cristãos ( VATICAN NEWS,2021).Em uma casa Iraquiana,é comum que membros da família acendam velas enquanto ouvem as crianças lendo histórias da bíblia. Após a leitura, uma fogueira de espinhos secos é ascendida, os iraquianos acreditam que o fogo tem o poder de prever o futuro da família. Caso os espinhos queimem por completo e se transformem em cinzas, significa boa sorte para a família. Depois há uma visita à igreja e o bispo abençoa os fiéis ( ALBAWABA 2011 )

Síria

Na Síria, as crianças precisam esperar um pouco mais para ganhar seus presentes natalinos, já que é apenas no ano novo que os recebem. No entanto, segundo o costume popular os presentes são levados não pela tradicional rena, mas sim por um camelo que representa o animal que conduziu os Três Reis Magos para Belém. Devido a espera do camelo, as crianças deixam água e feno fora de suas casas na parte da noite que depois são substituídos pelos seus presentes com a luz da manhã. Assim como outros cristãos do Oriente Médio, os sírios celebram a data com hinos cantados em conjunto . É comum que as famílias se unam para o jantar e comidas como frango, nozes, doces e laranjas estão presentes no banquete (ALBAWABA,2011 ) .

Egito

Diferente da maioria dos países, o natal no Egito é comemorado no dia 7 de janeiro, isso acontece pois a religião cristã predominante é a Igreja Copta ( Igreja Ortodoxa). A espera e preparação para a vinda de Jesus, chamada por Advento, é realizada 40 dias antes da celebração. Durante este período é recomendado que os fiéis façam jejum, principalmente de carne, aves ou laticínios, entretanto é comum que as pessoas façam apenas na última semana do advento Na véspera da celebração, as pessoas vão à igreja vestindo suas melhores roupas e a missa é encerrada à meia noite com o toque dos sinos. Após isso, as pessoas vão para suas casas comer uma refeição que é composta por pão, arroz, alho e carne cozida. Além disso, na manhã de natal os fiéis visitam amigos e vizinhos e levam consigo um tipo de biscoito amanteigado chamado Kaik ( ALBAWABA,2011).

Israel

Mesmo com apenas 2% da sua população cristã, nas cidades grandes de Israel como Jerusalém, Tel Aviv, Nazaré e Haifa é possível notar enfeites natalinos. Porém, muita das vezes o Natal cristão pode entrar em conflito com a Festa das Luzes, uma comemoração tradicional judaica que também é comemorada em dezembro. Na cidade bíblica Nazaré, onde está a maioria da população cristã do país, é possível encontrar árvores de Natal e pessoas fantasiadas, além disso acontece um desfile, que representa a jornada que Maria e José fizeram quando viajaram para Nazaré no natal . A missa de Natal, tradicionalmente, é realizada na Basílica da Anunciação, à meia noite do dia 24 de dezembro. Apesar de alguns israelenses não gostarem muito dos símbolos cristãos em suas cidades, o que faz remeter a fantasmas do passado, eles entendem a importância do turismo para a economia do país, principalmente na época do Natal (INSTITUIÇÃO ISRAEL BRASIL)

Arábia Saudita

Após a suspensão da proibição da comercialização de itens de natal, os moradores da Arábia Saudita, depois de muito tempo, podem comemorar o Natal em público. A decisão veio através do príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman, que tem por objetivo tornar o reino um local mais aberto e receptivo para outras religiões e culturas. Antes disso, celebrações não muçulmanas eram proibidas no reino e existem órgãos fiscalizadores, como a Comissão para a Promoção da Virtude e a Prevenção do Vício para supervisionar se as celebrações estão acontecendo. Agora, as lojas podem comercializar enfeites natalinos como fantasias de Papai Noel, bugigangas e árvores, a medida também vale para a decoração de Halloween. Como não é feriado nacional, os cidadãos vão trabalhar normalmente, mas pode acontecer de após o expediente as pessoas se reunirem para um jantar, ainda mais se os funcionários forem estrangeiros (ALBAWABA,2020).

REFERÊNCIAS

ALBAWABA. Christmas Is No Longer Celebrated Behind Closed Doors in Saudi Arabia. Disponível em: https://www.albawaba.com/editorchoice/have-merry-middle-eastern-christmas-holiday-tradations-all-over-arab-world-406573. Acesso em: 18 dez. 2021.

ALBAWABA. Have a Merry Middle Eastern Christmas!-Holiday Traditions from All Over the Arab World,2011.Disponível em: https://www.albawaba.com/editorchoice/have-merry-middle-eastern-christmas-holiday-tradations-all-over-arab-world-406573. Acesso em 15 dez. 2021.

INSTITUTO BRASIL ISRAEL . Natal Cristão no Estado Judeu: entre celebração e desconfiaça. Disponível em: http://institutobrasilisrael.org/noticias/noticias/natal-cristao-no-estado-judeu-entre-celebracao-e-desconfiaca. Acesso em: 18 dez. 2021.

VATICAN NEWS. Agora, Natal é festa nacional no Iraque, 2020. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2020-12/iraque-natal-festividade-nacional.html. Acesso em: 16 dez. 2021.

WHY CHRISTMAS. Christmas in Israel. Disponível em: https://www.whychristmas.com/cultures/israel.shtml. Acesso em: 18 dez. 2021.

WHY CHRISTMAS. Christmas in Turkey. Disponível em: https://www.whychristmas.com/cultures/turkey.shtml. Acesso em 16 dez. 2021.

WHY CHRISTMAS. Christmas in Iran. Disponível em: https://www.whychristmas.com/cultures/iran.shtml. Acesso em 16. dez.2021.

WOODHEAD, Linda. Religions in the modern world: traditions and transformations. 1.ed. Londres: Routledge, 2002. p. 177–234.

--

--

GEOM UFU
GEOM UFU

Written by GEOM UFU

Somos um Grupo de Estudos em Oriente Médio, idealizado por alunas do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

No responses yet