“Glória e honra eterna ao inesquecível e histórico combatente Yasser Arafat. Nada pode apagar seu nome da história daqueles grandes guerreiros que lutaram pela liberdade de seu povo.”
(tradução nossa)
Ex-Presidente cubano Fidel Castro, sobre a morte de Arafat, em 2004 (disponível em: https://en.on1.click/tiki-index.php?page=quote_Yasser_Arafat.
A maior consequência dos acontecimentos das décadas de 70 e 80 na polêmica briga histórica entre Israel e Palestina foi o Processo de Paz dos Acordos de Oslo. Pela primeira vez na história, israelitas e palestinos se juntaram para decidir o tão aguardado desfecho do conflito, exacerbado pela explosão dos protestos de 1987. Entretanto, os motivos que levaram à mesa de negociação Israel e a Organização para Libertação da Palestina não eram tão nobres assim. Do lado dos israelitas, havia a vontade de mostrar para a Comunidade Internacional que o país ainda continuava totalmente disposto a negociar um fim pacífico ao problema. Já no que tangia à OLP, Arafat estava desesperado para conseguir qualquer acordo que produzisse frutos para sua reputação, pois não só estava politicamente isolado após apoiar Sadam Hussein na Guerra do Golfo, em 1991, mas também a distância a que se encontrava dos Territórios Ocupados minava cada vez mais seu papel enquanto líder palestino, ameaçado pelo HAMAS.
A premissa básica das conversas de Oslo era de que as mudanças deveriam ser implementadas em etapas construtivas, fazendo com que um lado passasse a confiar no outro. O intuito final era de que, num futuro distante, as questões mais polêmicas como o destino dos refugiados palestinos pudessem ser resolvidas após cada um dos lados confiar em seu “nêmesis”. Implícito no acordo estava um reconhecimento mútuo, porém assimétrico: a OLP reconhecia o direito de existência do Estado de Israel, o qual, por sua vez, reconhecia a OLP como representante legítima do povo palestino, embora a criação do Estado da Palestina fosse uma das áreas designadas para conversas futuras. O maior patrono das negociações, obviamente, seria os Estados Unidos, à época única superpotência do mundo: quando tentados com a oportunidade de ter papel histórico no que parecia ser a definição de um dos maiores conflitos internacionais do século XXI, a administração Clinton abraçou a ideia, mesmo não sendo um mediador parcial, visto à amizade com Israel. De qualquer forma, no momento, o acordo foi celebrado como um grande trunfo por todos.
O maior acerto de Oslo foi a criação da Autoridade Nacional Palestina (ANP). A ANP seria como um embrião do governo palestino que deveria ser criado no futuro na região. Enquanto não se criava o propriamente dito Estado, a ANP ficou responsável pelo controle do que, pelos Acordos, chamaria-se Área A, que estaria sob administração palestina exclusiva (maior parte da Faixa de Gaza). A Área C continuaria dentro da jurisdição do Estado de Israel até que a ANP tivesse condição de administrá-los e as duas entidades controlariam o que se chamou Área B. À época, o maior beneficiado pelos acordos parecia ser Yasser Arafat, o personificador do nacionalismo palestino. Oslo marcou o fim do exílio da OLP no Norte da África, com o retorno de seus membros para os Territórios Ocupados, onde o FATAH passou a comandar a ANP, com a eleição do próprio Arafat como seu presidente, cargo que exerceria até morrer. Em 1994, ele e Rabin receberam o Prêmio Nobel da Paz: parecia que, finalmente, os ventos da mudança chegariam à Palestina.
“Eu, que servi o meu país por 27 anos como soldado, digo a vocês, à sua majestade, o Rei da Jordânia, digo a vocês, amigos americanos, que hoje nós estamos embarcando em uma batalha que não possui mortos ou feridos, nem sangue ou angústia. É a única batalha na qual é um prazer embarcar: a batalha pela paz.”
(tradução nossa)
Ex-Primeiro Ministro Israelense Yitzhak Rabin sobre Oslo e o Tratado de Paz com a Jordânia, em 1994 (disponível em: https://mfa.gov.il/MFA/MFA-Archive/Pages/ADDRESS%20BY%20PM%20RABIN%20TO%20THE%20US%20CONGRESS%20-%2026-Jul-94.aspx).
Mas esse vento nunca chegou: em 1995, Rabin seria assassinado por um manifestante da extrema-direita israelense, acusado de trair o sonho sionista. Assim como o assassinato de Sadat, em 1981, por motivos semelhantes impediu os tratados de paz esperados por Camp David, as conversas de paz em Oslo nunca mais seriam as mesmas após isso. Com o passar da década de 90, ficou claro para os dois lados de que, na realidade, sua contraparte nunca estava de fato interessada na paz: os palestinos nos Territórios Ocupados viam a cada dia suas condições de vida se tornarem piores, sem que Israel diminuísse sua presença; pelo lado judeu, a atividade cada vez mais terrorista de grupos contrários ao processo, como o HAMAS, ligaram um alerta se, de fato, a ANP era capaz de controlar sua região. Arafat passou a conviver diariamente com acusações de nepotismo e corrupção dentro da própria organização e, com medo de que sua popularidade pudesse despencar se agisse contra o crescente movimento islâmico após a Intifada, não tomou medidas sérias para acalmar o público israelense. As conversas não avançaram, a ANP se mostrou incapaz de manter a estabilidade da Área A e, consequentemente, a Área C se manteve nas mãos de Israel.
Pela virada do século, estava claro que Oslo foi apenas uma rara exceção na regra da região. O banho de sangue que marcaria o fechamento da década de 90 era a prova para os dois lados de que seu inimigo não queria negociar e não entendia outra língua que não a da violência. No ano 2000, a gestão Clinton, desesperada por um trunfo político que tirasse a atenção da mídia do Caso Monica Lewinsky, chamou a ANP e o governo de Israel para uma nova rodada de conversas, em Camp David. Entretanto, as conversas estavam fadadas ao fracasso desde o início, o que ficou claro quando Arafat recusou a proposta do novo governo israelita, de Ehud Barak, de uma solução de “tudo ou nada”, que previa a resolução de todas as polêmicas de uma só vez, apoiada por Clinton. A maior dificuldade de Arafat e Barak era a mesma: convencer os elementos mais extremistas de seus povos a apoiar as conversas de paz, nas quais os dois lados teriam que fazer importantes concessões. Para a população árabe dos Territórios Ocupados, concessões demais já haviam sido feitas ao longo de um século ao inimigo sionista, começando pela própria independência de Israel. Do outro lado, a recusa da ANP de aceitar a proposta de Barak foi vista como uma prova da má-fé dos palestinos nas negociações bilaterais de paz, levando à interpretação de que, na realidade, Arafat tinha mais a ganhar mantendo o conflito sem fim do que de fato selando a paz.
“Os israelitas estão enganados se acham que nós não temos alternativas às negociações. Por Alá, eu juro que estão errados. O povo palestino está preparado para o sacrifício até que o último garoto ou a última menina levante a bandeira da Palestina por cima dos muros, das igrejas e das mesquitas de Jerusalém.”
(tradução nossa)
Yasser Arafat, ex-presidente da Organização para Libertação da Palestina (disponível na obra Jerusalem Betrayed, de Mike Evans (1997).
Mais uma vez, a receita para confusão estava pronta, faltava apenas alguma ação para desencadear uma nova revolta. Curiosamente, ela viria do homem que, no imaginário palestino, talvez fosse o seu maior inimigo: o então candidato a primeiro-ministro Ariel Sharon. Sharon tinha uma longa história de inimizade com os palestinos e era popularmente visto como o maior inimigo de Arafat, principalmente pelo seu papel não só na Guerra do Líbano, mas nos massacres de Sabra e Chatila, pelo qual foi indiretamente responsabilizado. Em Setembro de 2000, o candidato visitou o Monte do Templo, sagrado para as três maiores religiões do mundo e entrou na Mesquita de al-Aqsa, um lugar sagrado para o islamismo. Para os árabes, aquilo era mais uma gota d’água e imediatamente protestos em massa novamente começaram a ocorrer em todo o país e se espalharam pela Faixa de Gaza e Cisjordânia: começava a Segunda Intifada. Entretanto, diferente de sua semelhante 13 anos atrás, essa demonstração ficou marcada pela gritante violência empregada pelo lado palestino: o dia a dia da população israelita passou a ser marcado pela insegurança de ataques suicidas protagonizados pelo HAMAS. Obviamente, como sempre, a resposta de Israel foi extraordinariamente militar e acusações de violações de direitos humanos contra as Forças Armadas Israelenses não tardaram a aparecer.
“Iniciativas como as chamadas soluções pacíficas e conferências internacionais estão em contradição com os princípios do Movimento de Resistência Islâmico.
Não há solução para a Questão Palestina que não seja a jihad (guerra santa). Iniciativas, propostas e conferências internacionais são todas uma perda de tempo e vãos empreendimentos.
O Movimento de Resistência Islâmico é um dos elos na cadeia de luta contra os invasores sionistas.”
(tradução nossa)
Manifesto do HAMAS (disponível em: https://irp.fas.org/world/para/docs/880818a.htm).
O já definhante Processo de Paz de Oslo sofreria mais um duro golpe na eleição de Sharon, do partido LIKUD, em 2001 como Primeiro-Ministro. Como parte de uma geração nascida antes da criação de seu país e como combatente de todas as Guerras Árabes-Israelenses, ele era conhecido por ser um homem linha dura, que não mediria esforços para conseguir a segurança de seus cidadãos, recorrendo até a medidas unilaterais se fosse necessário. Se Sharon já tinha respaldo da opinião pública interna de seu país para ações mais duras, qualquer condenação que fosse receber da comunidade internacional foi prontamente posta abaixo pelos acontecimentos do 11 de Setembro. Apoiado na política externa norte-americana de “Guerra ao Terror”, o novo governo israelense obteve aprovação de grande parte dos governos do mundo para tomar ações necessárias para desmantelar grupos terroristas como o HAMAS. Se antes, Oslo foi impulsionado pela diferença com a qual israelenses viam FATAH e HAMAS, com um comprometimento muito maior do primeiro com o nacionalismo secular, em oposição ao islã militante do último, a Guerra ao Terror desfez qualquer linha divisória. Consequentemente, passou-se a associar a própria imagem de Arafat com grupos terroristas: as Forças Armadas Israelenses publicaram documentos que provavam que o líder da ANP financiava a família dos terroristas e possivelmente os escondia.
Com a justificativa de conter a entrada de terroristas vindos dos Territórios Ocupados dentro do Estado de Israel, a administração Sharon começou, em 2002, a construir o famoso “Muro de Segurança”. Segundo o governo, quando a situação de violência da Cisjordânia diminuísse, ele poderia ser retirado, o que nunca ocorreu: a barreira conta com 710 quilômetros de extensão e 8 metros de altura, cercada de arames farpados em seu topo. A maior polêmica do muro é sua unilateralidade, visto que viola diretamente a ideia de que qualquer decisão que tenha impacto na vida nos Territórios Ocupados deve ser tomada mediante negociações bilaterais, forjada em Oslo. A própria Corte Internacional de Justiça deu parecer contra a construção do muro, embora Israel tenha argumentado que o tribunal não possuía voz na ação. Do lado judeu do muro, exacerbou-se aquilo que seria a marca do país no século XXI, embora não abertamente declarada: qualquer consideração ética do conflito é relegada a segundo plano frente às necessidades de segurança nacional. Quaisquer que sejam as objeções, o fato é de que o muro diminuiu consideravelmente a quantidade de ataques terroristas sofridos em território israelita. O assassinato, em 2004, do líder e fundador do HAMAS, Sheikh Yassin, deu um forte incentivo ao senso de segurança que o país experimentava com a parede dividindo a Cisjordânia.
Por representar perigo demais à segurança internacional pregada pela administração Bush, o poderio militar israelita cercou e bombardeou a base de Arafat, na cidade de Ramala. O líder palestino seria virtualmente confinado à prisão domiciliar até sua morte, em 2004. Embora fortemente criticado dentro da própria sociedade palestina pelo excesso de paternalismo e corrupção dentro da OLP e da ANP, não se podia negar a importância do líder militante para a evolução das aspirações de autodeterminação de seu povo. Arafat, após sua morte, tornou-se um mártir da luta palestina, o maior herói nacional do povo árabe palestino: as cenas de choro, bandeiras da Palestina ao vento e o luto geral que se viu em seu funeral, em 2005, provam a importância desse icônico indivíduo.
“Com ele desaparece um homem de coragem e convicção que, por 40 anos, encarnou a luta dos palestinos pelo reconhecimento de seus direitos nacionais. […] Eu venho me curvar diante do presidente Yasser Arafat e prestar uma última homenagem.”
(tradução nossa)
Ex-presidente francês Jacques Chirac (disponível em https://www.nbcnews.com/id/wbna6457176 e em https://www.dw.com/en/mixed-emotions-as-world-wakes-to-arafats-death/a-1391949).
Um ano após a morte de Arafat, o governo de Sharon anunciou que Israel retiraria todos seus assentamentos populacionais na Faixa de Gaza. A medida, apresentada pelo Gabinete como um gesto de boa fé para a população palestina, para um futuro momento de fim da ocupação, foi duramente criticada pela ANP como um gesto unilateral, sem coordenação ou participação das instituições palestinas no processo. A região, na verdade, não tinha muito valor estratégico ou econômico nenhum para os israelenses. Pelo contrário, grupos do mundo inteiro denunciaram a ação israelita como hipócrita, visto que o país manteve o controle de todas as rotas aéreas e marítimas da região, transformando a área mais popularmente densa do mundo em uma prisão a céu aberto, relegando os palestinos a humilhações diárias.
“O objetivo da operação é mandar Gaza de volta para a Idade Média. Só depois Israel ficará calma por 40 anos.”
(tradução nossa)
Ex-Ministro do Interior Israelense Eli Yishai sobre a operação feita em Gaza, 2012 (disponível em https://timesofindia.indiatimes.com/world/middle-east/israel-will-send-gaza-back-to-middle-ages/articleshow/17273682.cms).
Por todo status que tinha junto a todo aparato palestino, pode-se falar que era Arafat quem conseguia manter uma sofrida população unida. Após sua morte, as várias divisões dentro da própria sociedade palestina começaram a vir cada vez mais à tona. Durante toda sua história, iniciada na Primeira Intifada, o HAMAS teve um estrondoso sucesso junto à população local dos Territórios Ocupados, não só na retórica anti-sionista mas na construção de organizações que ajudavam no dia a dia da oprimida população local. Entretanto, esse sempre foi um papel não-oficial, visto que quem representada oficialmente a Palestina nos organismos internacionais era a OLP e posteriormente a ANP, ambas dominadas pelo secular FATAH, em oposição ao islamismo político dos seguidores de Sheikh Yassin. Por sua meta de alcançar um Estado Islâmico nas premissas da jihad (guerra santa) contra os sionistas, não é de se estranhar que os componentes do HAMAS tivessem muito mais gosto pela alternativa terrorista do que pela via da ação oficial, rechaçando propostas como os Acordos de Oslo. Entretanto, a insatisfação com o FATAH após a morte de Arafat levou o grupo a reconsiderar essa visão: em 2006, nas eleições para a Assembleia da ANP, 74 dos 123 postos foram ocupados por representantes do HAMAS. O último pilar ainda erguido de Oslo, a predominância do FATAH dentro da ANP enquanto base para conversas em forma do nacionalismo secular, fora derrubado.
O ex-grupo de Arafat se recusou a reconhecer a derrota e, a partir de 2007, os Territórios Ocupados caíram em uma Guerra Civil, com o controle da Cisjordânia nas mãos do FATAH e a Faixa de Gaza sob dominação do HAMAS. Começaria uma nova rodada no inacabável problema da Palestina. Até hoje, qualquer negociação está parada pelo simples fato de que, dentro da própria Palestina, não se sabe quem detém o poder de fato.
FONTE DAS IMAGENS (ordem de aparição):
Yitzhak Rabin (esquerda) aperta a mão de Yasser Arafat (direita): o “Espírito de Oslo” enchia o mundo de esperança em 1993: https://www.thinc.info/palestinians-present-contradictory-claims-regarding-oslo-accords/]
Divisão da Cisjordânia com os Acordos de Oslo em áreas A, B e C: https://www.researchgate.net/figure/Map-of-Areas-A-B-and-C-after-Oslo-II_fig1_276258691
Os ventos da esperança de Oslo iriam embora com a morte de Yitzhak Rabin. Ao fundo, o presidente Bill Clinton observa o caixão: nunca mais as conversas de paz avançaram tanto: https://www.flickr.com/photos/49152339@N05/8284786323/lightbox/
A polêmica visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo em 2000: https://www.thenation.com/article/archive/september-28-2000-ariel-sharon-visits-the-temple-mount-sparking-the-second-intifada/
Parte do muro com um grafite homenageando Leïla Khaled, uma das poucas mulheres engajadas na luta contra Israel na década de 70: https://www.palestineposterproject.org/poster/leila-khaled-mural
Multidão palestina reunida no funeral de Yasser Arafat em 2005: https://www.recordcourier.com/news/2004/nov/11/chaos-in-ramallah-as-arafat-is-buried/
FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
BAXTER, Kylie; AKBARZADEH, Sharam. Middle East Politics and International Relations: Crisis Zone. Nova Iorque: Routledge, 2018.
GASPER, Michael. The Making of the Modern Middle East. In: LUST, Ellen (Ed.). The Middle East. 14. ed. SAGE Publishing, 2017.
GELVIN, James. The Modern Middle East. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2011.
______. The Israel-Palestine Conflict: One Hundred Years of War. 3. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.
KEYLOR, William R. The Twentieth-Century World and Beyond: An International History since 1900. 6. ed. Oxford: Oxford University Press, 2011.
HALLIDAY, Fred. The Middle East in International Relations: Power, Politics and Ideology. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.
ROGAN, Eugene L. The Emergence of the Middle East into the Modern State System. FAWCETT, Louise (Ed.). International Relations of the Middle East. 4. ed. Oxford: Oxford University Press, 2016.
SMITH, Charles. The Arab-Israeli Conflict. FAWCETT, Louise (Ed.). International Relations of the Middle East. 4. ed. Oxford: Oxford University Press, 2016.
TESSLER, Mark. The Israeli-Palestinian Conflict. LUST, Ellen (Ed.). The Middle East. 14. ed. SAGE Publishing, 2017.