Autor: Luara Dias.
A República do Iêmen se encontra situada ao sudoeste da Península Arábica, em uma localização estratégica, na entrada sul do Mar Vermelho, onde convergem uma série de rotas comerciais e de comunicação antigas e modernas. Nesse sentido, a história, a cultura, a economia e a população do país tiveram sua formação muito influenciada por seu posicionamento geográfico, ainda na antiguidade, os Estados que formavam a área que hoje corresponde ao Iêmen controlavam o fornecimento de commodities importantes para a região. Além disso, o país conta com áreas de fertilidade que impulsionaram a prosperidade comercial e, por isso, foi denominada pelos romanos como Arabia Felix, que quer dizer Arábia Afortunada, como uma maneira de diferenciá-la das demais localidades chamadas de Arábia Deserta (ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, 2021; LIMÃO, 2019).
Atualmente, o Iêmen possui uma extensão territorial de 527.968 km², que se consolidou em maio de 1990, quando a República Árabe do Iêmen (Iêmen do Norte) se fundiu com a República Democrática do Iêmen (Iêmen do Sul). Por estipulação do acordo de unificação, antiga capital do Iêmen do Norte, a cidade de Sanaã passou a funcionar como a capital política do país, enquanto Aden, antiga capital do Iêmen do Sul, funciona como centro econômico do país. Como já supracitado, o Iémen é um país unificado e com uma posição geográfica importante e estratégica, posto que nele se situa o estreito de Bab el Mandeb (portal das lamentações, ou porta as lágrimas), ponto que liga o Oceano Índico, o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo, uma posição que assumiu especial importância depois da reabertura do canal do Suez, em 1975 (LIMÃO, 2019).
A população iemenita, que hoje está na marca do 29,83 milhões, é formada, majoritariamente, por árabes e possui como principal língua o Árabe Padrão Moderno — a língua literária e cultural do mundo árabe mais amplo — que é ensinado nas escolas, no entanto, grande parte das pessoas possuem algum dialeto Árabe como sua primeira língua. Ainda, o país possui como religião oficial o Islã, com destaque para a vertente sunita que é a mais predominante entre a população. Diante disso, tem-se uma comunidade não muçulmana muito pequena, formada, principalmente, por visitantes e trabalhadores estrangeiros. Nesse sentido, o Estado concede liberdade religiosa a todos, até mesmo para as comunidades judaicas, no entanto, a prática de proselitismo por parte de grupos não-muçulmanos é considerada ilegal (ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, 2021; BANCO MUNDIAL; 2020; LIMÃO, 2019).
Durante o século XIX, as porções Norte e Sul do Iêmen se encontravam sob domínio otomano e britânico, respectivamente. Nessa acepção, apenas a partir da década de 1950 as movimentações começaram em prol da independência. No Iêmen do Norte, proclamou a República Árabe no ano de 1962, sendo seguida de uma violenta guerra civil que devastou o país até 1970. O conflito interno só chegou ao fim a partir da chegada de Ali Abdullah Saleh ao poder, que conseguiu impor seu governo, de fato, sob a região. No entanto, mesmo após essa estabilização, a República Árabe do Iémen permaneceu como um país pobre (ELLWANGER. 2020).
Já o Iêmen do Sul, conseguiu sua independência através da Frente Nacional de Libertação (FNL), em 1967, proclamando a República Popular do Iémen. O Iêmen do Sul fez opção pela via socialista bastante radical, estreitando os laços com a União Soviética (URSS). Contudo, as divisões internas do partido geraram graves tensões e levaram a um conflito civil que resultou na perda de milhares de vidas. Essas agitações, conjuntamente com as mudanças ocorridas na URSS e na Europa do Leste, fizeram com que o Iémen do Sul visse a unificação como a única alternativa para solucionar sua crise interna (LIMÃO, 2019; ELLWANGER. 2020).
Fonte: Encyclopædia Britannica, Inc.
Assim, os termos finais da unificação exigiam a fusão total dos dois estados e a criação de um sistema político baseado na democracia multipartidária. Após um período de transição de 30 meses, as eleições de uma nova legislatura nacional deveriam ocorrer em novembro de 1992 (embora, em última análise, fossem adiadas). Entretanto, o otimismo generalizado que se deu após a unificação logo foi substituído por uma série de eventos difíceis para o Estado recém formado. No começo da década de 90, marcada pela guerra do Golfo, gerou alterações nas relações de poder no Médio Oriente, o que impactou, mesmo que de forma indireta, o colapso da economia iemenita. Apesar da importância crescente das receitas do petróleo, a economia do Iêmen no final da década de 1980 permaneceu fortemente dependente das remessas de trabalhadores e da ajuda econômica externa, especialmente da Arábia Saudita. Em meados de 1990, a República do Iêmen passou a se posicionar favoravelmente a uma solução diplomática para a agressão do Iraque, se recusando a integrar a coalizão militar EUA-Saudita contra o Iraque (ELLWANGER. 2020; ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, 2021).
Dessa forma, a Arábia Saudita passou a expulsar milhares de trabalhadores iemenitas e cortar toda a ajuda externa do país, fazendo com que a maioria dos outros Estados árabes ligados ao comércio de petróleo seguissem o exemplo. Por conseguinte, em poucos meses, o produto interno bruto (PIB) da república e as receitas do governo despencaram, as taxas de desemprego e inflação, bem como o déficit orçamentário, dispararam. Em 1992, a contração geral da economia havia produzido uma escassez generalizada e o governo se via incapaz de impedir o colapso da economia. Dessarte, com a economia em crise, conflitos políticos, que incluiu bombardeios e assassinatos, marcaram os anos que antecederam às primeiras eleições parlamentares gerais da república (ELLWANGER. 2020).
À vista disso, os anos 2000 foram marcadamente instáveis, especialmente pelas divergências entre os Houthis; grupo de seguidores da vertente xiita do Islamismo, apoiados pelo Irã; e o governo de Saleh, que possui suporte da Arábia Saudita, essas incongruências se concretizaram nas guerras de Sa’dah, bem como na aparição de grupos terroristas com agência dentro do território nacional, especialmente a al-Qaeda. Sendo assim, o país sofreu bastante com o movimento norte-americano de guerra ao terror, especialmente pelo impacto que o conflito gerou na economia e sociedade do Iêmen, aumentando a insatisfação populacional em todo o país. Tal insatisfação permaneceu até a eclosão, em 2011, do movimento conhecido como Primavera Árabe, em que revoltas eclodiram em diversos países do Oriente Médio e o Iêmen se tornou um dos primeiros países a experimentar os protestos. Essa revolta se tornou uma das mais importantes, visto que foi impulsionada por uma rebelião já existente, e culminou em uma guerra civil brutal, agitada pela intervenção estrangeira. Nessa conjuntura, criou-se uma das piores crises humanitárias da história (ELLWANGER. 2020 ;ONU, 2021).
Segundo a UNICEF, o conflito está ligado ao fracasso da transição política após as movimentações da Primavera Árabe, que forçou o antigo presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, a entregar o poder ao seu vice-presidente, Abdrabbuh Mansour Hadi, em 2011. A onda revolucionária evidenciou problemas antigos no Iémen, contudo, esperava-se que a transição política, apoiada pelas monarquias árabes do Golfo, trouxesse estabilidade e crescimento ao Estado, que era o país mais pobre da Península Arábica. Mas, verificou-se precisamente o contrário, pois conflito passou, em 2015, a ser fortemente influenciado por duas potências regionais rivais: Arábai Saudita e Irã, instaurando uma espécie de Guerra Proxy no país (UNICEF, 2021; ONU, 2021).
Nesse sentido, um ponto que precisa ser reforçado é que a crise Humanitária vivida no Iêmen se prolonga até os dias de hoje, segundo dados das Nações Unidas, o país soma cerca de 14 milhões de pessoas que dependem de ajuda Humanitária urgente, sendo a escassez de água potável e alimentos o fator mais preocupante, em outras palavras, o país permanece em uma situação de calamidade extrema. Em suma, o conflito armado no Iêmen resultou em vários abusos que mataram e feriram milhares de civis. Casos de desaparecimentos forçados têm aumentado e a crise sócio-econômica continua a se agravar ao longo desses seis anos de guerra. Sendo assim, o estabelecimento de um diálogo, em busca da resolução do conflito é primordial e depende de uma ação coordenada dos atores internacionais ligados ao conflito, uma vez que, para iniciar o processo de pacificação, é necessário cortar os auxílios militares e a concessão de armamentos, bem como romper totalmente com os bloqueios à entrada no país, para que a assistência humanitária possa, de fato, chegar à população (ELLWANGER. 2020; ONU, 2020).
Referências Bibliográficas
BANCO MUNDIAL. Republic of Yemen. 2020. Disponível em: https://datos.bancomundial.org/pais/yemen-rep-del. Acesso em: 20 out. 2020.
BRITANNICA, Encyclopædia. Yemen. 2021. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Yemen. Acesso em: 20 out. 2021.
ELLWANGER, Aléxia da Silva. Uma Análise Sobre a Guerra Civil no Iêmen. 2020. 83 f. TCC (Graduação) — Curso de Relações Internacionais, Universidade de Santa Cruz do Sul, Santa Cruz do Sul, 2020. Disponível em: https://repositorio.unisc.br/jspui/bitstream/11624/2827/1/Al%c3%a9xia%20da%20Silva%20Ellwanger.pdf. Acesso em: 18 out. 2021.
LIMÃO, José Pedro Coelho Monteiro. O Significado do Iémen no Grande Médio Oriente. 2019. 153 f. Dissertação (Mestrado) — Curso de Ciência Política e Relações Internacionais: Segurança e Defesa, Instituto de Estudos Políticos, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2019. Disponível em: https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/28131/1/TESE%20FINAL%20FINAL%20PDFA.pdf. Acesso em: 25 out. 2020.
Organização das Nações Unidas (ONU). Iémen: a maior crise humanitária do mundo. 2021. Disponível em: https://unric.org/pt/iemen-a-maior-crise-humanitaria-do-mundo/. Acesso em: 20 out. 2021.
Fundo das Nações Unidas Para a Infância (UNICEF). Yemen crisis: Yemen is the largest humanitarian crisis in the world and children are being robbed of their futures.. Yemen is the largest humanitarian crisis in the world — and children are being robbed of their futures.. 2021. Disponível em: https://www.unicef.org/emergencies/yemen-crisis. Acesso em: 20 out. 2021.